quem não deixaria?

fevereiro 14, 2010

Vi “Deixa ela Entrar”, o filme sueco de vampiro – vampira, na verdade – que se passa em Estocolmo, 1982. Gostei por vários motivos. Um: os vilões não falam muito. Aliás, ninguém fala muito, daí ser cinema puro. Dois: filmes em que os personagens ainda estão virando gente grande muito me agradam. Três: filmes de outras épocas também e 82 tá valendo. Quatro: o filme consegue ter cenas bizarras e belas, uma combinação rara. Cinco: os protagonistas são losers, cada um a sua maneira. Seis: a natureza sensual dos vampiros está lá – é uma coisa de pele e de debaixo da pele, certo? Sete: dá pra supor o que vai acontecer, mais ainda assim vem de um jeito surpreendente. Oito: parece que antes de ser filme era um livro! Nove: me lembrou O Pequeno Vampiro, um dos meus livros preferidos na infância. Dez: tem uma cena troncha com gatos. Onze: outra de auto-combustão também. Doze: na hora do arranca-rabo a câmera não sai do fundo da piscina. Treze: tá ali a natureza humana, sabe deus porque ele e ela se deram tão bem.

Catorze: esse ator é o novo Tadzio. Vide: Morte em Veneza.

pessoinhas na cidade

fevereiro 5, 2010

Tem um livro chamado Little People in the City, que dei de presente pro meu melhor amigo. É de um cara que faz pessoas milimétricas e põe no meio da rua, compõe umas cenas e fotografa. Os títulos das fotos – que viraram as páginas dos livros – são bobos. Mas a idéia geral é assustadoramente linda. Reza a lenda que, depois de fotografadas, ele deixa as pessoinhas lá, ao léu.

tipo isso.

Aí eu cheguei no Dragão do Mar e lá estava uma coisa que esse cara devia ter gostado:

eu sempre me pergunto porque os arquitetos não decidem viver de fazer gente ao invés de prédios.

Ah, eu num sei se gosto da idéia do Aquário na Praia de Iracema, não. E pra que construir, se já vem A Grande Onda?

fevereiro 2, 2010

Voltei de um canto longe. Lá, os insetos desistiram. Eu via miragens na neve. De verdade, o maisde verdade que isso pode ser: miragens na neve. Faz um enorme sentido, os físicos não precisam explicar.

um de janeiro. quero de novo.

Rio 3D

outubro 12, 2009

O Rio de Janeiro cabe numa caixa. Mas é uma caixa de brinquedo grande, cheio de fotos de um lado e de outro, nas laterais também. Uma criança pequena precisará de ajuda pra carregar. Ao abrir é preciso usar as duas mãos, e todas as pecinhas menores caem desmontadas no seu colo. Umas peças maiores ficam no fundo da caixa, como as pedras do Arpoador, coladinhas uma na outra, a mansão do Parque Laje, a águia do Theatro Municipal, o Sambódromo.

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Os arcos da Lapa vem em módulos pra encaixar, o trilho que se forma sobre eles merece cuidado. Certo, é bem possível que uma criança mais ninja decida que o bondinho podia ficar no hipódromo, por exemplo.

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O Cristo Redentor (que aparece bem grande na foto da embalagem) não é uma peça grande, é das pequeninas, cuidado pra não perder, daí é toda a brincadeira que pode perder um pouco o sentido. Mas sua base original, onde ele deve ser encaixado, é das grandes, não tem como não ver. E se caso você perder o Cristo, fica um buraco lá no alto.

Faz-se bem-vinda a ajuda de um adulto pra montar a parte das fiações. Sim, esse é um brinquedo que acende. E, se montado direitinho, é bem capaz que algumas crianças prefiram brincar à noite, com as luzes da sala apagadas. Só assim vai dar pra ver como a luz dá sentido a essa mini-cidade, assim como também vai ficar mais fácil entender porque o nome escrito lá na caixa é Rio 3D. Quando os fios são ligados direitinhos o bondinho do Pão de Açúcar aparece pendurado em supostos passeios noturnos, a Lagoa reflete as luzinhas de seu entorno, o Cristo Redentor fica iluminado dum jeito que pode ser visto por quase qualquer habitante-bonequinho da cidade, mesmo que o adulto-ajudante resolva, no meio da montagem, soltar uma baforada de cigarro sobre o brinquedo, nublando o céu. Como as crianças são bem menores e, ao contrário dos adultos, adoram sentar no chão e ver os brinquedos nessa perspectiva horizontal, elas vão sacar esse efeito na hora. É provável que algumas confundam os morros acesos em infinitas luzinhas mínimas – Rocinha, Alemão, Cantagalo, Maré – com um estranho arbusto de Natal, achando que essas partes da cidade passam a vida esperando Papai Noel ou algo assim. Aí você explica o que é o algo assim, ao invés do Papai Noel.

lagoa

Tem também peças feitas para voar e navegar.

Das coisas que voam – ou se suspendem, planam no ar – tem os helicópteros. Eles ficam na beira da Lagoa, prontos para um passeio por sobre toda a cidade, depois de montada. Mas tem pecinhas bem menores também, como os ultraleves e parapentes.
Essas saem das peças grandes como a Pedra da Gávea e passam pertinho de outra enorme que é o Morro Dois Irmãos.

Cuidado pras crianças menores de 4 anos não engolirem os ciclistas da Floresta da Tijuca.

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As mais bélicas vão adorar os comandos em ação cariocas, até tanques eles tem! As crianças menorzinhas podem até achar que aquelas bazucas e metralhadoras ficam melhores como varas de pesca cujas linhas se afundam na Lagoa Rodrigo de Freitas (sim, tem uns peixinhos minúsculos pra pôr ali). O fundo da Lagoa é uma das peças grandes. Depois de ser preenchida com água, a gente põe em sua superfície uns pedalinhos em forma de cisne. Ao redor da Lagoa é onde a gente põe, depois de rasgar o mesmo saco plástico, as bicicletas de formatos variados.

Todas as portas dos prédios importantes e antigos são parecidas com os chocolates-surpresa: retângulos marrons com desenhos em alto e baixo relevo. Cuidado para as crianças não morderem, adicionando ao desenho entalhado a marca dos dentinhos.

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Outras peças de encaixe mais complicado são as dos túneis e viadutos, assim como os elevados. Os túneis são especialmente difíceis de montar, já que é preciso encaixar por debaixo das peças grandes e não é só isso: eles acendem por dentro. Cuidado pra não esquecer nenhum carrinho dentro deles.

Ah, o Maracanã, peça imensa, também acende! Não vem com bola, nem poderia. E ali perto dele tem uma calçada que – se for devidamente montada – forma uma partitura e pode até tocar música se você pôr a pilha embaixo dela e fazer um bonequinho atravessá-la no passo certo. Um sambinha, olha só.

Tem uns bonequinhos, também: o Drummond sentadinho num banco, o Noel sendo servido por um garçom numa mesinha de bar e um estudante de desenho com uma prancheta no colo. O desenho que ele tá fazendo você decide o que é dependendo de onde você quer colocá-lo, mas não vai dar pra ver, ele é uma das pecinhas menores de todas. Só com uma lupa você vai notar que ele usa all-star.

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ei, você aí

setembro 28, 2009

enquanto os correios saem da greve.

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laerte, ailouviu

setembro 27, 2009

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do que não se diz

setembro 27, 2009

chega em pausas

cada uma é uma página de dicionário

dicionário ilustrado dicionário em braille dicionário de sinônimos dicionário de antônimos dicionário dos dias do ano dicionário para traduzir cada uma das curvas de cada uma das linhas das estratificações das folhas daquele outro país.

bateu o Caeiro

setembro 13, 2009

Do que você realmente precisa? Água, comida, banho, uma cama, repouso. Papel e caneta. Roupas. Não muitas. (Nas melhores partes da vida estamos sem elas). Memorabilias não são pra sempre. Memorabilias são tocáveis e perecíveis. Podem ajudar a dar uma linha lógica – ? – à uma existência. O que você precisa carregar com você pra continuar sendo você mesmo? Carregar pressupõe peso. Levar é melhor. Levar é de um jeito menor e ainda assim tão maior.

– Enrico, você num tem problema de jogar um monte de coisa fora? Assim, juntar tudo numas caixas e pluncs, adeus! Se desfazer delas.

– Oura, a gente se desfaz dum monte de células todo dia e nem sente falta.

o peixim que morava dentro da montanha

setembro 12, 2009

No Caxitoré a gente pode jogar pingue pongue. Depois de 2h e meia de viagem sertão adentro, a gente chega na casa grandona e bonita pra beber água de côco, ver soín comendo fruta da mão da gente, papagaios namorando, pavão empinando o rabo no sol, fazer fogueira e se cortar nos gravetos, prosear balançando na rede e sentir o ventinho frio da manhã misturado no cheiro de café que a família do Bob faz.

Lá celular não pega. As mensagens mais bonitas do mundo só me chegaram na volta, depois de cruzar alguma barreira invisível de raiozinhos. Lá a gente pode andar sem nada nas mãos, só um galho seco pra ir fazendo rabisco na terra ou um tamarindo bem travoso na boca já resolvem.

Eu ainda levo é coisa. Papel. Coisa de ler e de escrever. Cãmera pra bater foto e filmar. Cigarros. (Será que um dia eu páro de levar tanta coisa?)

Aí o Bob aponta o piso de pedra e diz:

“Tem uns peixins aqui, tá vendo?”

“?”

“Tá aqui, ó. Tá vendo não? Aqui!”

“Bob essa tua cerveja é qual?”

“Nããão… Olha aqui. Viu?”

E eu vi mesmo. Lá estavam eles, em alto-baixo relevo, uns peixinhos pequeninins, sabe deus desde quando presos dentro da pedra grande que é todo dia fatiada pra virar chão das casas. De mil casas.

“O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão.” Quem foi que disse isso primeiro? Antonio Conselheiro? Euclides da Cunha? Luiz Gonzaga? Beto Guedes? O Bob?

Ah, e me disseram que o piso daquele aeroporto onde o Tom Hanks mora, naquele filme e tals… veio todo daqui do Ceará.

Peixes-figurantes cinematográficos.

as escavadeiras atrapalhando o sono dos peixinhos.

as escavadeiras atrapalhando o sono dos peixinhos.

mas tá valendo

julho 31, 2009

Some men here
They know the full extent of
Your distress
They kneel and pray
And they say :
Long may it last

 

 

é isso: they kneel

do joelho

knee

 

de estar de joelhos.

e saber.