Archive for março \26\UTC 2009

ô paulo, sente aqui, vá.

março 26, 2009

ah, que bom que você veio. mas não precisa sentar tão perto, fasta um pouquinho pra lá. é, estão asfaltando a rua. o cheiro é ruim. tá todo mundo hipnotizado pelo preto novo do chão, ao invés de reparar nos estumes róseos. deixe que eu acendo seu cigarro. queria lhe pedir pra interceder pelo sol. reze pelo meu nariz e tubulações internas. para que eu não adoeça, porquer não vai dar tempo. ah, se der tempo me ensina uns golpes ninjas. e como se diz aquilo em sânscrito. em qualquer língua, aliás. mas o sol é mais urgente. e quase nada é urgente.

aí ele afiou o bigode. balançou a cabeça. bateu a cinza. e disse:

– nada que o sol não explique .tudo que a lua mais chique. não tem chuva que desbote essa flor.

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será que a sigourney weaver vem?

março 14, 2009

Meu povo, esse é o projeto pra revitalização da Praia de Iracema. Chama-se Aquário e foi o Enrico quem me mostrou:

os ovos já devem estar no Mara Hope.

os ovos já devem estar no Mara Hope.

com uma lua dessas aí os aliens vão procriar rapidinho nesse aquário.

com uma lua dessas aí os aliens vão procriar rapidinho nesse aquário.

se tirarem o Largo do Mincharia eu mando a alien-mãe comer a mão desse arquiteto, ouras.

se tirarem o Largo do Mincharia eu mando a alien-mãe comer a mão desse arquiteto, ouras.

tudo só piora – e é lindo

março 12, 2009

eu sabia. eu já sabia. mas não tinha pressa nenhuma. aí ontem, finalmente consegui ver o filme “Ensaio sobre a cegueira”, baseado no livro do Saramago que nunca li. aliás, nunca li nenhum dele, mas sei das histórias todas recontadas principalmente pela minha mãe, que leu quase todos. e que senhor gaiato. note, gaiato não exclui os adjetivos profundos. mas um cara que escreve sobre um pedaço de terra que se desprende e se vai no mar, o lado B de um evangelho, a viagem de um elefaante, uma história em que ninguém mais morre ou de repente todos vão ficando cegos do nada só pode ter muito espírito.

penso muito em escritores e cineastas e no tempo looongo que leva, em geral, pra aprontar um livro ou um filme. não só a mão na massa, mas o tempo e energia de vida que a pessoa passa com aquela história na cabeça. idéias fixas que crescem ano a ano. no caso dos cineastas é algo que acho ainda mais penoso, já que envolvem mil pessoas e rios de dinheiro pra terminar uma obra. obra esta que nunca vai sair 100% só dele, claro, é muita mão e espírito combinado.

aí eu penso: será que as idéias fixas escolhidas por esse povo dizem algo sobre seu caráter? pra mim sim. passar anos e anos com uma versão de Ensaio sobre a Cegueira para o cinema na cabeça é uma maneira muito nobre de viver uma parte da vida.

já gostava muito de Fernando Meirelles, esse meu homônimo de L a mais. (isso rende ótimas piadas.) quando soube que seria ele o cara a colocar esse livro na tela, só suspirei.  minha mãe já tinha me contado a história. aí fiquei sabendo que teria a julianne moore. e a alice braga. e um dia topei com o cartaz por aí. ai que dor no coração.

eu poderia ficar surda ou muda. cega é o pior.

eu poderia ficar surda ou muda. cega é o pior.

mas não vi no cinema, entrou e saiu e tudo bem. daí, ano passado lá estava eu em são paulo num longo passeio guiada pelo Amarílio Jr. passamos pelo minhocão e ele, guia ninja e gentleman, contou:

– aqui é o elevado costa e silva. feio né? serve pra nada. aliás, serve. aos domingos ele é fechado pra carros, é bom. ah, e foi aí que rodaram uma parte do Ensaio sobre a Cegueira.”

olhei longamente. tinha mendigos ao redor de uma fogueira, na parte de baixo. não tinha muito movimento. já estava meio parado, meio deserto. era fim de tarde de sábado. um assombro de desolação.

e agora que vi o filme, tudo que eu esperava se cumpriu. até mais, acho eu. TUDO SÓ PIORA, uma grande bola de neve branca ao longo de 2h de mazelas surreais – e tão possíveis. lembrei do ditado do meu avô sobre as “quartas- de-sal”.  achei o blog escrito pelo diretor durante a filmagens, algo infinitamente mais interessante que qualquer extra de DVD, aaaahh se os filmes bons tivessem blogs assim de seus diretores – ou diretores como ele! – um Making Off de outro jeito. com palavras.

http://blogdeblindness.blogspot.com

lá pra ficar sabendo como a cabeça linda do Fernando Meirelles funciona enquanto diretor de cinema, leitor, colega de trabalho, brasileiro, pessoa bem-humorada e cheia de fé. me surpreendi ainda mais. e lógico, muito sobre as soluções e surpresas no processo de filmagem. “jogo de armar”, ele usa essa expressão que adoro pra definir a sensação de começar a pôr as imagens do Saramago na tela. e fala também da trilha sonora que é do Uakti, grupo mineiro que cria os próprios instrumentos e trabalha com timbres pouco usuais, ainda mais no cinema.

trilha que eu conheci e estranhei (sim, pois há o belo que vem pela estranheza. quem sabe o mais belo.) antes. e reconheci. jaína, merci!

e pra terminar por aqui, o vídeo que pode coroar dois trabalhadores tão nobres, lado a lado no ofício de abrir os olhos e novos mundos pra nós:

noite de domingo

março 9, 2009

Noite, Beira-Mar.

– Mãããe! – a menininha passa correndo pela minha mesa seguida por outra, se estabacam no chão.

– Luísa, já tá cheia de areia! – a mulher trás uma bolsa enorme. Ele fica um momento em pé, atrás das 3, ele masca chicletes. Muito rápido se abancam, ela encaixa uma cadeira – pesada – na areia, ao lado da dele. As meninas parecem passarinhos.

– Posso pedir uma Coca, mãe?

Ele coça o nariz num gesto rápido e no seguinte apóia o cotovelo e segura o queixo. Mira o breu do mar. Está sem uma gota de paciência, eu sinto. A mãe grita pra maiorzinha:

– Margarida,na areia! NA AREIA, eu disse!

“Como foi seu dia?” ela havia perguntado e eu ouvi. Isso logo após a chegada em rebuliço. Ele, um homem mais jovem, pernas cobertas, tênis. Não era o pai. Ela, cabelos pintados, óculos. As meninas não falam com ele. Nem olham. A mulher está ali 3 em 1. Eles se beijam enquanto as meninas brincam de enterrar um canudo atrás das cadeiras dos dois.

Reinventam o submarino.

dicionário

março 6, 2009

eu penso em língua portuguesa
eu praguejo em cearês
eu fresco em portunhol
eu brinco em frânces
eu atravesso, esperanto
eu subverto em inglês
e ainda
quero tutti-frutti