segunda noite na Praia Grande – parte 2

– Tem coisas que acabam e não é por isso que não deram certo. Aliás, o conceito de “dar certo” é um mistério.

Celso havia me levado pra jantar uma lasanha lá no Portas do Atlântico e me olhava comer enquanto conversávamos sobre movimentos estudantis, ongs, coletivos independentes e outros organismos muito vivos e formados por vários organismos vivos chamados PESSOAS. E que morrem, já que vivos. Sim, amadurecem, caducam e morrem. E, já que morto, porém antes vivo, deixam resíduos orgânicos muito férteis para o surgimento de outras cousas muito vivas. Eu estava lá naquele Laboratório de Mídias Livres de São Luís e sob meu nome na programação havia “Zine-se”. olhava longamente pra ele, de vez em quando. O Zine-se – esse encontro mensal de interessados em zines – fez 6 anos e parou. A Ong Zinco também parou na mesma época. E assim estamos desde então. É tudo tão lento, eu pensava enquanto comia minha lasanha. Tudo deixa vestígio, eu pensava enquanto me melava os dedos. Mas toda fome vale à pena. Celso entendia e me clareava as idéias. Depois que a gente traduz as cousas em signos – como numa conversa – tudo fica mais lógico. Aliás, falar serve pra isso, também: construir caminhos lógicos, quiçá iluminados para si e para os outros.

celso e os papos luminosos, mesmo sob luz difusa.

celso e os papos luminosos, mesmo sob luz difusa.

do lado direito, o mar.

do lado direito, o mar.

De lá perambulamos até reencontrar os amigos dele e decidiu-se o rumo do Bar do Porto, na rua do Trapiche, pertinho do mar. A chuva voltou e dessa vez com força, nos abrigamos na entrada do lugar. Lembrei da palavra Cafua. E da palavra Furna. Parecia mesmo uma caverna, uma toca, uma gruta estranha adaptada para se andar sem topar. Mas o teto era baixo e lá dentro o volume do reggae era alto, eu não estava com vontade de entrar. E tava bonito ver a chuva dali. E ali fiquei ainda numas cervejas repartidas com o povo até chinelar pra dentro de um táxi e ir pro hotel. Levando no bolso um pedaço de papel vagabundo como vale de outra cerveja em troca do troco que a moça do balcão não tinha.

Fechei a porta do quarto e já tinha tirado parte da roupa – pelo menos os óculos – quando vi algo se mexendo sobre a minha cama. Era pequeno, mas se eu consegui ver sem óculos, não era tão pequeno assim. E se mexia. Subia pelas paredes.

– CA-RA-LHOU, UMA RÃ!

Ela pareceu ouvir e confirmou dando um pulo pra outra parede. Fiquei sóbria em 2 segundos, agarrei o telefone e liguei:

lépida e fagueira.

lépida e fagueira.

– Recepção?

– Tem uma rã no meu quarto.

– Pois não, estamos subindo.

Imediatamente e com muita calma, a voz do cara. Ou isso acontecia sempre ou eles são muito ninjas, eu pensei. Eu estava hospedada no quinto andar do hotel, no lado “novo” de São Luís. Como diabos aquela rã foi parar ali?! Abri a porta para um rapaz armado com vassoura, detetizador (ô palavra troncha!) saco plástico e um sorriso sem graça.

– Tá ali, ó. Mas num precisa matar a bichinha não! Só tenta pegar ela e levar embora, certo?

– Pode deixar.

E quanto olé esse cara levou dessa rã enquanto eu esperava no corredor. Ele afastava a cama, o criado mudo, topava, o saco parecia estar furado, eu ria.

– Pronto, senhora Fernanda! Tá aqui a bicha. – e ergueu o saco no ar, muito vitorioso.

– Muito obrigada, Luís. – e dava passagem pros dois. – Isso já aconteceu antes?

– Não senhora.

– Ok. Boa noite.

– Boa noite.

ufa.

ufa.

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2 Respostas to “segunda noite na Praia Grande – parte 2”

  1. ceição Says:

    Encontrei teu blog no da Joice (Sem Mais Delongas) e adorei ler o que você escreve, principalmente sua passagem por São Luís. Ainda bem que o Luís te salvou da rã. Podia ser pior, já pensou na serpente da lagoa da Janser? rsrsrsrs

  2. cousascousadas Says:

    nããããão!!!!!!! e serpente nããããããão, eu morreriaaaaaaaaaaaaa!

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