segunda noite na Praia Grande – parte 1

– Dona Teresinha, se eu deixar minha mochila aqui com a senhora… – e ela já começou a rir.

– Vá, minha filha, vá. Daqui nada some, não, lhe garanto.

E fui. Tão bom andar sem bolsa. Ainda mais numa cidade nova. É impressionante a resistência que se tem sem jantar e andando e trabalhando e pensando e bebendo numa cidade que não é a sua. Eu tava cansada, mas não contava muito.

“Você não é daqui, né?”, “Você é de onde?”

As pessoas sempre acham que sou de outro canto. Não importa muito onde eu esteja. E em São Luís pude confirmar. “É, não sou daqui.” E assim me comportei. Não sou mesmo daqui, então compro uma cerveja e sento acolá e olho e bato foto. E olho as pessoas como se recém-chegada de outro continente. E sei que quando ficar chato pego um táxi e vou pro hotel dormir. Mas tava longe de ficar chato. Então a pergunta era quando minha pilha ia acabar. A banda tocava forró com tambores. O povo aqui dança bem facinho, notei de novo. E como adoro ver gente dançar, sentei ali e lá deleitei-me. Apareceu um que parecia um gato. Musculoso e negro quase azul, cheio de curvas. Pulou por cima do banco onde eu tava sentada sem o menor esforço, bem dizer outro passo de dança. Foi saudar alguém e juntos dançaram.

ele nem notou, lógico. tinha cousas mais importantes a fazer.

ele nem notou, lógico. tinha cousas mais importantes a fazer.

E vi mendigos dançando. Nunca vi mendigos dançando assim. Bêbados ou sóbrios, não importa. Tive um sonho erótico depois e isso foi muito troncho. Misturou o povo que vi dançando e a borboleta e o leão da Escola de Música e mais coisa. O hippie com ventosas. Era um cara que vi desde o primeiro dia. Na verdade eu vi primeiro o chapéu. Que diacho era aquilo? Eu não soube precisar de que material era feito o chapéu e foi isso – além da forma – que me invocou. Animal, vegetal ou mineral? Ele estava expondo cousas numa calçada e a parede atrás dele era muito branca, isso deu um efeito mais cousado. E as bohemias também, claro. Sentei num batente em frente, do outro lado da rua e lá fiquei.ele não estava só. Tinha outro cara, uma mulher muito magra e muito lépida e uma criança. “Claro, onde tem um hippie de verdade tem uma criança.” Alguém bocó me disse depois. Fiz um vídeo. Não está no you tube. Ficou longo e o youtube não aceita. Tudo bem, guardo pra mim. Trinta mil pessoas passando entre eu e ele e a câmera no meu colo. Aí ele notou. E eu notei que ele notou. Aí eu fiquei sem jeito. E passou. Ele ficou lá. Brincava com a criança, que vestia uma camisa de mangas compridas, talvez compridas demais. Resolvi. Terminei minha cerveja e atravessei a rua. Sorrimos enquanto eu ainda estava no meio da travessia. Estendi a mão.

– Você é linda.

– Eu te filmei.

– Eu sei.

– É… você tem e-mail?

– Claro…

– !!!

O nome dele era Delano. Sorte pra tu, Delano.

a menininha já não precisva das mangas compridas, iam ambora

a menininha já não precisva das mangas compridas, iam ambora

ah, e tinha um gatinho na história.

ah, e tinha um gatinho na história.

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Uma resposta to “segunda noite na Praia Grande – parte 1”

  1. N.Lym Says:

    Eu amo vir aqui. E ler TUDO.
    😉

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