Oficina de zine – parte 1

A Praia Grande é outro nome pro Centro Histórico de São Luís, a parte mais antiga de toda a ilha. Me lembrou Olinda, mas com menos cores – não menos bela. Desci no Centro de Criatividade (nome ótemo) Odilo Costa e Silva, um galpão perto do mar/rio com cinema e espaço de exposições e mais coisa que não vi. Lá era o lugar do credenciamento do encontro e tava um caos, como qualquer lugar de credenciamento no primeiro dia. Me apresentaram à Kelly e ela me guiou até a Escola de Música, umas 2 quadras acima, gentilmente carregando minha mochila maior. Logo no começo achei o hidrante fotografado pela Roberta, minha primeira guia (invisível) na cidade. Entramos por uma portinha estreita no casarão e haja corredor e escada e tcharammm, a oficina é aqui: um salão imenso com chão de tábuas bicolores (que nem na Lua Nova), teto altíssimo, candelabro e portas vitrais imensas atravessada pela luz do céu que se abria. Fiquei sem fôlego. Primeiro pela subida (sou fumante), depois pelo lugar (ia acontecer várias vezes) e por último porque, fora eu e dois garotos, não tinha mais nada que lembrasse uma oficina prestes a acontecer. Nada mesmo, nenhum material, nem mesa, nem lousa, nem nada.

Arrumamos 3 cadeiras e uma mini-mesa. Os meninos eram diferentes do público que eu esperava. Primeiro por serem só dois, depois por estarem muito encabulados, meio submissos e sem nenhuma expectativa. Não sabiam o que era fanzine, nunca tinham ouvido aquela palavra antes.

– Então como vocês vieram parar aqui? – olhei o crachá de credenciados.

– Ah, mandaram a gente vir pra cá e a gente veio.

márcio e renato e o lugar

márcio e renato e o lugar

Ok, deixei uns zines pra que eles lessem e pedi um minuto. Desci as escadas – quase me perdendo – e cheguei na entrada, onde estava o povo da organização esperando meu material. As pessoas da organização muitas vezes não se conheciam e alguém que falava ao celular me perguntou da janela de cima:

– Você é a Fernanda Meireles?

– Sim! – e a menina falou de novo ao celular e depois pra mim.

– É o Celso.      

– Ah, manda beijo e diz que eu cheguei.

– Ele manda dizer “sinto muito”. – e riu.

– ?!

Celso Serrão é o rapaz que me convidou para estar aqui. Sabia pouco dele, só que conhecia o Tiago Coutinho, meu companheiro de Ong Zinco e que era do movimento estudantil. Bastou. Soube então que ele devia estar arrancando os cabelos, pois o primeiro dia do evento estava um caos. Necas de material, gente que ia dar a oficina e não apareceu, gente que tava inscrito na oficina e devia estar perdida tentando achar os prédios, horários errados no site do evento, convidado japonês sumido no aeroporto, e mais coisa que eu sabia que tinha e num queria nem saber. Aí apareceram quatro meninas simpáticas perguntando se eu precisava de alguma coisa. Algo dentro daquele possível de mais 40 minutos de oficina que inexistiu no primeiro momento.

– Sim, vamos fazer uns cartazes com esse material que chegou agora.

Aí prontamente subimos e junto com os dois garotos fizemos à mão e muito ligeiro uns 15 cartazes pra coisa começar de verdade na manhã seguinte, sexta, 10h. Ainda haveria outra manhã, a de sábado. E tchau. Qualquer tarefa coletiva, iniciada com entusiasmo e clareza de objetivos, tem o poder de acalmar os nervos e, 5 minutos depois, divertir. Criar vínculos também. Cooperação é uma coisa lindíssima. Ainda mais quando uma das mesas é um piano de cauda e de algum canto do casarão vem o som de uma música sendo ensaiada em outro piano. Os meninos que chegaram primeiro continuavam muito encabulados, mas gostaram muito de fazer os cartazes. Eles não tinham nenhuma prática de escrita, então primeiro os incubi de colorir as letras maiores. Depois que ficaram mais à vontade propus que repetissem o texto todo em novos cartazes. Não é qualquer pessoa que não escreve que topa escrever em letras grandes sem medo. Mas eles fizeram. E aí tinha o Anacleto, que até então eu achava ser o vigia da Escola, mas estava acompanhando os meninos.

– Aqui é bonito, né?

Eles balançavam a cabeça.

– Já tinham vindo aqui?

Eles balançavam a cabeça que não.

– Vocês moram onde?

– A gente não é de São Luís, não. – o menor sorriu encabulado.

Ia fazer mais pergunta quando o Anacleto avisou que o carro tava lá fora para buscá-los e já era 4 e meia e amanhã eles estariam de volta na hora certa. Quanto mistério, mas tínhamos que rapidamente guardar tudo e decidir quem e pra onde levariam cartazes e dividir pedaços de durex enrolados em canetas individuais e aquela música vinda de não sei de onde e o Anacleto:

– Amanhã não virei, vem outra pessoa com eles, mas sábado sim. Foi um prazer, D. Fernanda.

E apertamos as mãos. Os meninos saíam meio cabisbaixos. Um voltou pra buscar a pasta do encontro enquanto guardávamos as coisas. Se o hábito de ler e escrever não existia, quanto mais o de carregar papéis. Fiquei curiosa.

lais, naiara, eu e suellen. e nossa mesa.

laís, naiara, eu e suellen. e nossa mesa.

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