me fale de Gaza.

eu ouvi. e ouvi e ouvi e ouvi. já sabia mais ou menos do que se tratava, só alguns detalhes empregatícios estavam enrolados aos da zona sul e aos subterrâneos. a menina estava de coração partido e aflita. mas disfarçava, tentava sentar ali e tomar uma cerveja. tentaria fazer com que eu a ouvisse. era só uma questão de tempo.

– ér… pois então, você aqui… legal… tomando cerveja? bom.. vim tomar uma também. ai. tanta coisa.

tanta coisa. acredito. o tempo todo. mas os motivos pra gente estar ali eram opostos. eu tava feliz. só queria ficar bem quieta como pra prolongar cada grão de sensação, sem me mexer, tudo ainda pregado na pele, sem mexer os grãos continuam lá. brilham contra a luz, até…

– putz, as pessoas… pera vou atender, com licença.

é as pessoas. um caso sério. as pessoas e as miniaturas, né D. Zara? não sei quais são mais impressionantes. acho que as pessoas, pois as miniaturas ficam quietinhas. cabem na mão. as pessoas não cabem nas mãos. nem nas duas mãos. nem nos dois braços e duas pernas.

– pronto. cara, eu devia desligar esse celular… mas é foda.

tá. vou perguntar. vamos lá.

– que foi, fia?

aí ela falou. falou e falou e falou. eu bebi e fumei e bebi e estralei os dedos. não precisava muito, era mais ouvir mesmo. a menina estava realemente triste. e realmente tentando fazer pouco caso, não dava pra tacar a testa na mesa, derrubar copos de cerveja perigando pegar em mim e depois chutar o cachorro. aí tem umas perguntas inofensivas que ainda dá pra gente fazer. aí a gente tenta:

– mulher… é. é foda. mas acontece. sei lá. pensa em Gaza.

– ?

– Gaza. o povo tendo que correr das bombas, deixando as casas. o que você voltaria pra buscar na sua casa?

ela riu. aeee. mas era sério.

– sério, o que você voltaria pra pegar?

– ?…. minha mãe.

– e só? né?

– é.

– e sua mãe tá onde?

– em casa.

– maravilha. pronto.

– Gaza é foda, né?

– é. eu não entendo nada. tu entende?

– o que? a faixa de Gaza?

– é. Gaza, Palestima, Hamas, Cisjordânia, muçulmanos, filisteus, ONU… não entendo porra nenhuma. mas sei que é foda.

– ah, eu entendo! claro.

– é mesmo?

– sim!

– pois me explique aí, qual o pró? porque a galera tá assim? o que tem em Gaza? o que o povo quer? onde tá o nó?

– ah, cara… é assim, ó…

e pronto. ufa. ela me explicou tudo. tudo e descreveu os videos no youtube sob o codinome “massacre em Gaza” que eu não tenho a menor intenção de ver. e explicando tudo isso ela foi vendo o tamanho do aperreio. as dimensões paralelas. a relatividade. as reais necessidades. respirar, ter alguém que se importe, que lhe espere (mãe, por exemplo), uma pessoa basta. ter comida. tomar banho. beber água, muita muita muita água. água limpa. comer. pronto. Gaza. Gaza apaziguou seu coraçãozinho sobressaltado. que coisa.

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3 Respostas to “me fale de Gaza.”

  1. Joice Says:

    depois me explica?
    saudades de tu. tô dói-dói
    :/
    mas já volto

  2. Carlos Says:

    É, é assim mesmo, que se tem que pensar.
    E eu também não entendo nada desse negócio de gaza e o que tem em volta.

  3. karameloazul Says:

    meu coração é a faixa de Gaza.

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