Archive for janeiro \29\UTC 2009

Primeira Noite na Praia Grande

janeiro 29, 2009

Então eles se foram e lá estava eu com as bagagens e a terceira Bohemia. Aí apareceu o Rafael, o carioca que ia dar a oficina de intervenção urbana. E logo me deu dois zines de quadrinhos de alguém lá do Rio. E logo o Celso finalmente apareceu, com cara de cansado e muito sério. Falamos pouco, mais de como tinha sido, o que tinha faltado e que tinha esperanças no amanhã. O Bruno, que me recebeu no aeroporto, apareceu perguntando se eu queria ir pro hotel naquela hora – comecinho de noite – e eu fiquei na dúvida. Muito solícito ele disse:

– Se você quiser ficar aqui direto pro show, não tem problema. Posso levar sua bagagem pro hotel.

Uau! Pensei, quero sim. Entreguei minha mochila maior com as roupas e mais coisa dentro pra ele e fiquei só com a mochila menor, com papéis, câmera, documentos. E agradeci a Deus e minha mãe por ter me deixado estudar bem muito e ter um trabalho em que alguém em outra cidade me perguntasse uma delicadeza daquelas. Algumas pessoas passavam e nos cumprimentavam e eu tentava guardar o nome de todo mundo e o que cada uma fazia, depois desisti e Celso se foi. Logo chegou o Marcelo, da oficina de stêncil. Depois a Sofie, que tinha participado um pouquinho das duas oficinas. 

Logo éramos quatro para a primeira noite em São Luís: eu de Fortaleza, Rafa do Rio, Marcelo de Minas e Sofie da Dinamarca. Não fomos muito longe em espaço, só em tempo. O papo tava bom, entre planos B pras oficinas, impressões de São Luís e nossas cidades e o garçom trouxe um balde obsceno de Bohemias mergulhadas no gelo quando o Marcelo pediu só-mais-uma. Rafael ainda pediu uma Tiquira, a bebida doida e roxa de São Luís, mas não tive coragem de experimentar – eu sou prudente. Depois de mil anos vimos o show do Wado e depois de mais mil anos acabou a pilha e fomos embora.

em um breve passeio, achei - lá atrás, subindo as escadarias - o beco da catarina mina!

em um breve passeio, achei - lá atrás, subindo as escadarias - o beco da catarina mina!

mas a noite não tinha acabado.

Cheguei no hotel meio molhada de chuva e feliz, pensando no Wado e na raiz que ele diz ser uma flor que renega a fama.

– Boa noite. – recebi as chaves do quarto e tals.

– Boa noite. A minha mochila.

– Que mochila?

– A minha, uma preta, que o pessoal da organiação do encontro trouxe antes de eu chegar.

– Um momento. – não-não-não-não-não. Ele voltou e disse:

– Não recebemos nenhuma mochila D. Fernanda.

Tava bom demais. Ai ai. Respire. Respirei. Subi pro quarto e liguei pro Celso. Ele ia atrás do Bruno e da minha mochila e me ligava. Mandaria a mochila pro hotel ainda naquela noite. Ok, tomei um banho e apaguei. Depois, 1 da manhã, alguém bate na minha porta. Me enrolo no lençol e abro. Um senhor de olhos puxados me estende uma maleta.

– Fernanda? O Celso pediu que eu lhe entregasse sua bagagem.

– ?! Não é a minha.

– Não?

– Não. – ai meu deus, encostei a cabeça na porta. – Você é o…?

E ele me diz um nome com sobrenome em japonês.

– AAhhh! Você veio com a gente no vôo?

– Sim.

– E onde você estava?

– No hotel. Desci do avião, não vi ninguém, peguei um táxi e vim pra cá, ué.

Prático e sábio. Como eu devia ter sido.

– Olhe, pois foi um prazer, vamos conversar mais de manhã, vou ligar pro Celso de novo…

E olhamos pra bolsa.

– E de quem é essa mala, então?

– Sei lá!

E rimos e nos demos boa-noite. O dia seguinte ia ser longo.

 

 

 

sofie e rafo castro

sofie e rafo castro

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Interlúdio na Praia Grande

janeiro 29, 2009

Me despedi das meninas simpáticas que iam levar o material pra outro prédio uma quadra acima e desci a ladeira fazendo o caminho de volta pelo hidrante da Roberta. Tava sempre cheio de gente por ali e sempre passava alguém com o crachá do evento. Fui dar uma volta, mesmo ainda carregando as duas mochilas, e dei de cara com o Wado passando som num palco vizinho a uma escadaria imensa, em frente à mesma rua da Escola. Olhei pra trás e tinha um barzinho lindo com cadeiras honestas do lado de fora. Sentei e pedi uma Bohemia. Minhas obrigações do dia tinham acabado, agora era rezar pra tudo andar. Porque não rezar tomando uma cerveja e ouvindo o Wado passar o som? A praça era a Mauro Machado e a rua era a da Estrela e o barzinho era o Antigamente. Era o equivalente a estar sentado no Bar Avião, no meio da praça do Dragão do Mar. Ou no Amici’s. Só que era uma rua mesmo, não estabelecimentos. Tinha gente de todo jeito, inclusive gente com cara de quem morava por ali. E já não tinha chuva e o espaço se preparava para o movimento da noite. Uma roda de tambor de crioula na esquina, nada extraordinário, digo, para eles. Vi trocentas rodas e blocos com tambor e elas surgiam como se brotassem do chão. Não parece ensaio para alguma coisa, é a coisa em si. Não há multidões ao redor, tem sempre muita gente olhando, mas como elas são muitas e começam e se desfazem, tem pra todos os lados.

Tava doida que aparecesse alguém de lá pra conversar comigo e lá vieram as meninas e o menino da organização que ficaram ajudando com os cartazes. Acenei, começamos a falar, eles me explicaram que era ali que era ali, o centro de tudo. Olhamos mapas, eles me apontaram caminhos, explicaram à maneira deles – linda – a geografia da cidade. Tava escurecendo, dali a pouco eles tinham que ir pra casa, moravam longe e iam de ônibus.

– Quatraqui? que nome legal.

– É, só é longe!

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As meninas eram a Naiara, Laís e Suellen. O menino era o Diego. Nenhum estudava jornalismo. Todos eram simpáticos e delicados. Fumamos uns marlboros juntos.

– Me dá aí o segundo?

– Dou – sem saber o que era o segundo. Eles notaram.

– O segundo é tipo, tu fuma até a metade e me dá a segunda metade.

– Aí às vezes se a pessoa pedir de volta ainda ela diz, rola aí de volta o terceiro!

E por aí fomos, achando graça. Diego me mostrou o zine que faz e falou dos anarco-punks de Fortaleza, com quem teve contato, enquanto abri minha pasta para passar os zines nas mãos delas e dele. A pergunta chave entre zineiros de verdade é: “Tem aí algum zine dos teus preu ver?” e eu tava achando engraçado tal interesse ter vindo deles, tão novinhos (uns 19 anos) e fora da faculdade (só o Diego fazia uma, Biologia, algo assim). Mas o negócio é que tinha uma vibe punk de verdade e tudo se confirmou quando me confessaram que estavam trabalhando na organização do evento atrás de uma vaga no ônibus que iria domingo pra Belém, eles queriam estar no Fórum Social Mundial. E no decorrer dos dias foi dando certo, a viagem se confirmando – acho que a primeira grande viagem pra todos – e o entusiasmo crescendo.

– A gente ainda não sabe onde vai ficar lá, mas isso é besteira!

Punk-rock-hard-core-tota-toal-é-issaí, adorei os quatro.

 

 

Oficina de zine – parte 1

janeiro 29, 2009

A Praia Grande é outro nome pro Centro Histórico de São Luís, a parte mais antiga de toda a ilha. Me lembrou Olinda, mas com menos cores – não menos bela. Desci no Centro de Criatividade (nome ótemo) Odilo Costa e Silva, um galpão perto do mar/rio com cinema e espaço de exposições e mais coisa que não vi. Lá era o lugar do credenciamento do encontro e tava um caos, como qualquer lugar de credenciamento no primeiro dia. Me apresentaram à Kelly e ela me guiou até a Escola de Música, umas 2 quadras acima, gentilmente carregando minha mochila maior. Logo no começo achei o hidrante fotografado pela Roberta, minha primeira guia (invisível) na cidade. Entramos por uma portinha estreita no casarão e haja corredor e escada e tcharammm, a oficina é aqui: um salão imenso com chão de tábuas bicolores (que nem na Lua Nova), teto altíssimo, candelabro e portas vitrais imensas atravessada pela luz do céu que se abria. Fiquei sem fôlego. Primeiro pela subida (sou fumante), depois pelo lugar (ia acontecer várias vezes) e por último porque, fora eu e dois garotos, não tinha mais nada que lembrasse uma oficina prestes a acontecer. Nada mesmo, nenhum material, nem mesa, nem lousa, nem nada.

Arrumamos 3 cadeiras e uma mini-mesa. Os meninos eram diferentes do público que eu esperava. Primeiro por serem só dois, depois por estarem muito encabulados, meio submissos e sem nenhuma expectativa. Não sabiam o que era fanzine, nunca tinham ouvido aquela palavra antes.

– Então como vocês vieram parar aqui? – olhei o crachá de credenciados.

– Ah, mandaram a gente vir pra cá e a gente veio.

márcio e renato e o lugar

márcio e renato e o lugar

Ok, deixei uns zines pra que eles lessem e pedi um minuto. Desci as escadas – quase me perdendo – e cheguei na entrada, onde estava o povo da organização esperando meu material. As pessoas da organização muitas vezes não se conheciam e alguém que falava ao celular me perguntou da janela de cima:

– Você é a Fernanda Meireles?

– Sim! – e a menina falou de novo ao celular e depois pra mim.

– É o Celso.      

– Ah, manda beijo e diz que eu cheguei.

– Ele manda dizer “sinto muito”. – e riu.

– ?!

Celso Serrão é o rapaz que me convidou para estar aqui. Sabia pouco dele, só que conhecia o Tiago Coutinho, meu companheiro de Ong Zinco e que era do movimento estudantil. Bastou. Soube então que ele devia estar arrancando os cabelos, pois o primeiro dia do evento estava um caos. Necas de material, gente que ia dar a oficina e não apareceu, gente que tava inscrito na oficina e devia estar perdida tentando achar os prédios, horários errados no site do evento, convidado japonês sumido no aeroporto, e mais coisa que eu sabia que tinha e num queria nem saber. Aí apareceram quatro meninas simpáticas perguntando se eu precisava de alguma coisa. Algo dentro daquele possível de mais 40 minutos de oficina que inexistiu no primeiro momento.

– Sim, vamos fazer uns cartazes com esse material que chegou agora.

Aí prontamente subimos e junto com os dois garotos fizemos à mão e muito ligeiro uns 15 cartazes pra coisa começar de verdade na manhã seguinte, sexta, 10h. Ainda haveria outra manhã, a de sábado. E tchau. Qualquer tarefa coletiva, iniciada com entusiasmo e clareza de objetivos, tem o poder de acalmar os nervos e, 5 minutos depois, divertir. Criar vínculos também. Cooperação é uma coisa lindíssima. Ainda mais quando uma das mesas é um piano de cauda e de algum canto do casarão vem o som de uma música sendo ensaiada em outro piano. Os meninos que chegaram primeiro continuavam muito encabulados, mas gostaram muito de fazer os cartazes. Eles não tinham nenhuma prática de escrita, então primeiro os incubi de colorir as letras maiores. Depois que ficaram mais à vontade propus que repetissem o texto todo em novos cartazes. Não é qualquer pessoa que não escreve que topa escrever em letras grandes sem medo. Mas eles fizeram. E aí tinha o Anacleto, que até então eu achava ser o vigia da Escola, mas estava acompanhando os meninos.

– Aqui é bonito, né?

Eles balançavam a cabeça.

– Já tinham vindo aqui?

Eles balançavam a cabeça que não.

– Vocês moram onde?

– A gente não é de São Luís, não. – o menor sorriu encabulado.

Ia fazer mais pergunta quando o Anacleto avisou que o carro tava lá fora para buscá-los e já era 4 e meia e amanhã eles estariam de volta na hora certa. Quanto mistério, mas tínhamos que rapidamente guardar tudo e decidir quem e pra onde levariam cartazes e dividir pedaços de durex enrolados em canetas individuais e aquela música vinda de não sei de onde e o Anacleto:

– Amanhã não virei, vem outra pessoa com eles, mas sábado sim. Foi um prazer, D. Fernanda.

E apertamos as mãos. Os meninos saíam meio cabisbaixos. Um voltou pra buscar a pasta do encontro enquanto guardávamos as coisas. Se o hábito de ler e escrever não existia, quanto mais o de carregar papéis. Fiquei curiosa.

lais, naiara, eu e suellen. e nossa mesa.

laís, naiara, eu e suellen. e nossa mesa.

chegando

janeiro 29, 2009

Eu devia ter pedido o papel com meu nome escrito errado pra quem me recebeu no aeroporto. Do hotel escreveria nele uma carta. Mas esqueci. O aeroporto de São Luís estava com uma reforma no teto: BLAM- BLAM-BLAM! As apresentações foram feitas em voz mais alta que o normal. A professora Joanita e o Bruno, aluno dela e parte da organização do evento já estavam lá com o convidado argentino. Faltava um japonês. Esperamos então. Já passava de 1 da tarde e minha oficina começaria às 2. Daí eu iria direto pra lá, sem hotel e com as duas mochilas e um pouco de fome. Paciência (eu tenho é muito). Então vamo conversar, né? Acabou o desembarque e nada do convidado de nome japonês. As companhias aéreas não fornecem informações sobre passageiros, e agora? Vamo anunciar no som, aí BLAM BLAM BLAM, é não dá. Bom, como eu não era da organização avisei que ia fumar um cigarro lá fora, olhando o restim de chuva ludovicense. Ah, e não, não vou me perder estarei bem ali, ó. O argentino resolveu ir comigo, acho que mais pra sair do barulho lá de dentro. Aí tentei puxar papo.

– E o que isso aí? – Eu apontava pra uma bagagem retangular e aparentemente meio flexível, que ele trazia.

– ?!

– Isso. – o cara me olhou estranho. Quase ofendido.

– Minha roupa, ora. Porque?

– Ah… é um terno! – ele vai falar de terno num evento desses em São Luís, ok. – Pensei que fosse algum equipamento ou material que você ia mostrar.

– Não.

– Ok.

Fumei mais. Agora que já começamos…

– E você vai falar do que?

– TV Rocinha. Implantamos TV a cabo numa favela.

– Ah, legal. E como foi pra entrar na Rocinha?

– Como assim?

– Pra começar e dar certo, como vocês fizeram?

– Ah, colocamos *** de reais lá dentro!.. E as pessoas de lá é que trabalham lá também.

– Não, eu sei. Eu digo, com quem vocês falaram, com quem começaram a explicar a proposta… É preciso começar com algumas pessoas em qualquer lugar novo, quanto mais na Rocinha, não?

– Ah… com líderes comunitários. – e fez um gesto óbvio com a mão. A parte da conversa que eu acharia mais interessante morria ali. E nada do japonês. E chuva.

– E você, trabalha com que?

– Publicações independentes. Fanzines. Redes de comunicação.

– Ahn…

Aí ele começou a falar – depois que perguntei – sobre a história da família dele na Argentina e como foi rodar o mundo e parar no Rio. Legal e tal, aí o povo veio ainda preocupado com o outro convidado que sumiu. Será que ele dormiu e foi descer em Belém?

– Ér… ele vai falar agora à tarde? È que eu vou.

E fomos. No caminho, a parte sem graça da cidade, como todo em volta da maioria dos aeroportos. A professora me explicou como que se desculpando, mas tudo certo. Perguntei de que lado o sol nascia, mas ninguém sabia dizer. Mas me disseram o nome das rodovias, que são nacionalidades parte da história do lugar, achei massa.

– Qual a população de São Luís? – o argentino perguntou.

– Mais de 1 milhão de habitantes. Bem, existe uma briga com o IBGE, eles não reconhecem que já passamos disso, mas é isso. – a professora solícita tentava responder todas as perguntas de almanaque abril e gúgou que ele tinha quando eu exclamei e apontei com o dedo:

– Escoteiros do Mar?! – era uma casinha com cara de associação no meio dum terreno cheio de lama. Ainda longe da praia, supus.

– ?! Poxa, nunca tinha visto isso.

Aí o papo voltou a ser de comparar tamanhos de capitais, etc. Depois mudou pra turismo e foi falado sobre Fortaleza, sempre a frase chave de pessoas em trânsito, não importa de onde nem pra onde, o papo pode ser “Você já foi à _________?” aí o resto flui. Falamos do turismo ruim que estragou a Praia de Iracema aqui. Alguém completou, é, os estrangeiros tomaram conta de tudo, compram tudo, os franceses, os holandeses, os… aí ele interveio.

– Mas veja, Santa Catarina foi o único estado do Brasil cujo PIB (ou outro nome pra lucro, não lembro) aumentou em *** por cento (também não guardo números).

– Hunm..

– E sabe porque?

– As chuvas? – minha resposta foi sincera.

– Ah!…. não dá pra falar sério com você!

E ele nem me cumprimentou no café da manhã seguinte.

aventuras em São Luís

janeiro 29, 2009

Estive 4 dias na terra do tambor, São Luís do Maranhão, pra dar uma oficina de zine no Laboratório Internacional de Mídias Livres, evento grandão e preparatório pro Fórum Socil de Belém, que deve estar acontecendo nesse instante. Pela primeira vez vou tentar pôr aqui o diário de bordo desenrolado.

volto já.

volto já.

da cidade solar pra outra rua do sol.

da cidade solar pra outra rua do sol.

me fale de Gaza.

janeiro 20, 2009

eu ouvi. e ouvi e ouvi e ouvi. já sabia mais ou menos do que se tratava, só alguns detalhes empregatícios estavam enrolados aos da zona sul e aos subterrâneos. a menina estava de coração partido e aflita. mas disfarçava, tentava sentar ali e tomar uma cerveja. tentaria fazer com que eu a ouvisse. era só uma questão de tempo.

– ér… pois então, você aqui… legal… tomando cerveja? bom.. vim tomar uma também. ai. tanta coisa.

tanta coisa. acredito. o tempo todo. mas os motivos pra gente estar ali eram opostos. eu tava feliz. só queria ficar bem quieta como pra prolongar cada grão de sensação, sem me mexer, tudo ainda pregado na pele, sem mexer os grãos continuam lá. brilham contra a luz, até…

– putz, as pessoas… pera vou atender, com licença.

é as pessoas. um caso sério. as pessoas e as miniaturas, né D. Zara? não sei quais são mais impressionantes. acho que as pessoas, pois as miniaturas ficam quietinhas. cabem na mão. as pessoas não cabem nas mãos. nem nas duas mãos. nem nos dois braços e duas pernas.

– pronto. cara, eu devia desligar esse celular… mas é foda.

tá. vou perguntar. vamos lá.

– que foi, fia?

aí ela falou. falou e falou e falou. eu bebi e fumei e bebi e estralei os dedos. não precisava muito, era mais ouvir mesmo. a menina estava realemente triste. e realmente tentando fazer pouco caso, não dava pra tacar a testa na mesa, derrubar copos de cerveja perigando pegar em mim e depois chutar o cachorro. aí tem umas perguntas inofensivas que ainda dá pra gente fazer. aí a gente tenta:

– mulher… é. é foda. mas acontece. sei lá. pensa em Gaza.

– ?

– Gaza. o povo tendo que correr das bombas, deixando as casas. o que você voltaria pra buscar na sua casa?

ela riu. aeee. mas era sério.

– sério, o que você voltaria pra pegar?

– ?…. minha mãe.

– e só? né?

– é.

– e sua mãe tá onde?

– em casa.

– maravilha. pronto.

– Gaza é foda, né?

– é. eu não entendo nada. tu entende?

– o que? a faixa de Gaza?

– é. Gaza, Palestima, Hamas, Cisjordânia, muçulmanos, filisteus, ONU… não entendo porra nenhuma. mas sei que é foda.

– ah, eu entendo! claro.

– é mesmo?

– sim!

– pois me explique aí, qual o pró? porque a galera tá assim? o que tem em Gaza? o que o povo quer? onde tá o nó?

– ah, cara… é assim, ó…

e pronto. ufa. ela me explicou tudo. tudo e descreveu os videos no youtube sob o codinome “massacre em Gaza” que eu não tenho a menor intenção de ver. e explicando tudo isso ela foi vendo o tamanho do aperreio. as dimensões paralelas. a relatividade. as reais necessidades. respirar, ter alguém que se importe, que lhe espere (mãe, por exemplo), uma pessoa basta. ter comida. tomar banho. beber água, muita muita muita água. água limpa. comer. pronto. Gaza. Gaza apaziguou seu coraçãozinho sobressaltado. que coisa.

hein? – 2

janeiro 20, 2009

– um free.

– 3 reais.

– tá.

ela vai arrumar o trôco. olho o calendário.

– esse rapaz já morreu?

– hein?

– esse. – e aponta pra minha camisa.

– ah. já.

 

troncho, muito troncho andar com uma camisa que diz: essa pessoa é das minhas e já se foi. e na foto ele sorri em cima de uma prancha.

hein?

janeiro 20, 2009

– vai pra onde, vô?

– hein?

– Vai PRA ONDE?

– ah… dar uma volta, andar.

– humnmn

– esticar as pernas. senão encolhe, né?

– ?

e agoura fefé?

janeiro 8, 2009

tinha uma amiga no colégio que me vivia me dizendo isso aí. ela nem conhecia drummond. e eu ria pra caramba.

– meu ônibus passou!

– e agoura, fefé?

– erjgnaejkrngjkearngjnaerjgaer

o fato é que me propus a fazer algo que fiz em 2mil e 6: um zine semanal. ele se chama Domingo e vai ao mundo no dia seguinte. o primeiro já foi. e, pensando no segundo, percebi a cousa. ele se propõe a trazer histórias de mentira. inventadas. nada disso aconteceu. etc. mas aí tem esse blog aqui com propósito parecido e não quero repetir posts no papel. jizuz. gente, ajuda aí, me falem absurdos que tranformo em outros absurdos nível 4, com pitadas do vento que vai bater em mim, já que minha bicicleta chegou.

marco antonio, ailouviu!

marco antonio, ailouviu!

2mil e love

janeiro 6, 2009
essa é da luciola, acho. e está agora lá na exposição do mac, numa luz bem parecida.

essa é da lucíola, acho. e está agora lá na exposição do mac, numa luz bem parecida.

 depois de meses e meses reparando nas bicicletas brancas, na lógica e benefícios das cousas (já que não caso, né?)… comprei uma bicicleta branca. é linda. podia pendurar no meu quarto e só ficar olhando pra ela. mas que nada. esse vai ser meu esporte radical, vou é zunir pra vários cantos, cruzar o benfica, visitar o povo, pedalar com o germano, com o enrico e com quem mais vier, já descobri as maravilhas do salonpas e solto os braços na ladeira enquanto o vento me atravessa.

ah, e esse ano tem zine novo. Domingo, o nome dele. e serão 52 domingos até o fim do ano, tenho dito. uma nova experiência, um novo formato, um novo friozim na barriga.

ps: foi a mariana quem inventou isso de 2mil e love. muito love.