Minha Querida Beatriz

 

A sua Cidade Solar está toda enfeitada, se você já saísse de casa e reparasse, ia ver. São enfeites, guirlandas e bolinhas coloridas por toda parte. Antigamente era mais fácil de ver as bolinhas que não piscam e que sua tia tanto adora. Hoje quase tudo pisca. E quando você pisca, já foi.

 

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No caminho pra casa eu vi um homem no alto da torre. Na verdade não era torre. É uma coisa de ferro apontando o céu, onde ao redor o povo enfeita de coisa e luz e vira uma Árvore de Natal. Aqui em casa nunca teve árvore, mas aqui na Cidade Solar tem pelo menos duas que são feitas para o povo todo olhar. Aí a gente olha. Então o homem tava subindo, talvez pra começar a enfeitar a árvore. Ele não estava só, tinha um amigo dele lá no lugar mais alto de todos. Isso foi num lugar chamado praça Portugal, que fica meio longe daqui e é cercado de carros e lojas por todos os lados. Mas disso você não precisa saber agora. Não faz muito sentido lhe explicar como funciona porque você é beibi e na verdade não faz sentido mesmo. A Árvore do ano passado era feita de redes. As mais perto do chão eram feitas pra gigantes, gente muuuito maior que você. Aí, a medida de ia ficando mais alto, as redes iam virando redinhas. Será que você já cabe na que ficava láááá no alto? Acho que ainda não.

 

Agora eu pensei que seria legal, porque você chegou, se a gente tivesse arrumado uma arvorinha pelo menos do seu tamanho. Ia ficar bonito na foto. E aí ela podia crescer junto com você.

 

Quando chega essa época as pessoas ficam meio doidas. Primeiro porque o ano vai acabar e tem uma coisa chamada dinheiro, uns papéis cheios de desenho, feitos pra trocar por coisas. As pessoas – algumas – ganham mais dinheiro nessa época, mas ficam aflitas sempre, ou porque já gastaram o dinheiro antes dele chegar ou porque acham que têm que gastar com alguma coisa que elas nem sabem bem o que é ou pra que servirá. A maioria acaba trocando o dinheiro por besteira mesmo, mesmo tendo que ficar em filas longas em lugares desconfortáveis. Você ainda não sabe como isso é chato porque o único lugar desconfortável pra você até agora era a barriga da sua mãe algumas horas antes de você chegar aqui e sua fralda quando está molhada, coisa que é muito passageira. Então, as pessoas ficam aflitas com isso chamado dinheiro e as coisas que ele trás, que podem ser chamadas presentes e/ou dívidas. Algumas ficam tão aflitas que tomam o dinheiro das outras. Uma vez, quando sua tia era dum tamanho entre agora e você (um pouquinho maior), sua avó a levou pra trocar dinheiro por sapatos, que seria o que o povo chama de Presente de Natal (não tem que ser sapatos, pode variar). Era no centro da cidade, um lugar grande e sempre aperriado nessa época. Fica perto da outra grande Árvore de Natal, na praça do Ferreira, que por sua vez é onde tem o prédio bonito onde seu bisavô trabalhou. Esse prédio se acende todo nessa época e crianças maiores que você aparecem cantando nas janelas. O nome dele é Excelsior.

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Mas voltando, o que aconteceu é que na hora que sua tia estava toda feliz dando os primeiros passos dentro do par de sapatinhos e sua avó buscava na bolsa o bendito dinheiro… Cadê? Foi-se em algum empurra-empurra da rua Guilherme Rocha com São Paulo. E aí sua tia, que num entendia muito, mas sabia que aquilo não era legal, te imitou aos berros dentro da loja.

 

Outro motivo que deixa as pessoas meio aflitas é que o ano está chegando ao fim e isso chamado FIM é algo que perturba muita gente, mesmo elas sabendo que logo chega outro ano, que depois do FIM tem sempre outra coisa. Paciência.

 

Ah, preciso lhe falar dum cara chamado Papai Noel. Ele tem dois nomes, chama-se Santa Claus, também. Eu sei, fica difícil entender como pode, mas o mundo tá cheio dessas cousas assim estranhas, você se acostumará. Então, reza a lenda que ele veio de longe e parece que nunca teve o seu tamanho. É um senhor gordinho e tem sempre muito cabelo. Todos brancos. Aparece de vermelho e tem outra lenda que diz que é por causa dum refrigerante aí, mas você não precisa saber disso agora. O que você precisa saber é que ele não é só um, na verdade são vários que aparecem nessa época, em tudo quanto é canto: nas lojas, nas casas e nos cantos que não são lojas nem casas. Mas tem um que fica na rua e não se veste só de vermelho. Ele é legal, embora eu nunca tenha falado com ele direito. A rua que falo é perto daqui e ele é legal porque a barba branca é de verdade, se veste de toda cor, branco, azul, amarelo, amarelo-queimado e até verde e o melhor de tudo: ele aparece o ano todo, não só no Natal. Quero muito lhe mostrar, se der tempo. Dizem que as crianças podem pedir qualquer coisa pro Papai Noel, agora, se elas vão receber, é outra coisa. Mas tudo bem, às vezes quando a gente pede, outra pessoa escuta o pedido e vai que ele se realiza? Então eu gosto desse Papai Noel colorido e de barba de verdade porque toda vez que passo por ele na rua peço uma coisa na minha cabeça. Quando a gente pede com vontade, mesmo só dentro da cabeça, às vezes parece que alguém escuta e a coisa acontece. Então, não é massa que ele exista o ano todo?

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Outra coisa. Quando chega nessa época do ano, além do Natal tem também o dia 31. É o último dia do ano e nele as pessoas costumam ficar mais doidas ainda. Muitas choram. Deve ter a ver com aquela história do FIM que falei antes. Elas choram muito, não como você, mas para algumas também é bom. Tem muita zoada em todo canto, muitas gentes se juntam nas casas ou em lugares pagos (e nesse caso o dinheiro serve não pra trocar por coisa, mas por um lugar temporário onde as pessoas acham que devem estar). Tem muita gente que se junta no meio da rua mesmo, porque não têm o tal do dinheiro ou porque querem ver as luzes no céu e talvez se jogarem no mar. Ah, tem gente que faz de tudo, fica que nem barata tonta, passa nas casas, vai nos cantos, gasta dinheiro e às vezes fica na rua. A maioria dessas pessoas usa um carro pra poder levar mais gente junto e estar ligeiro em todos esses lugares, coisa que, se a pessoa não for organizada, corre o risco de estar dentro de um carro no último minuto do ano (acontece muito).

 

Mas é importante ainda lhe falar das luzes no céu. Sempre tem, o ano todo, você vai perceber. Mas nessa noite do dia 31 de dezembro, na hora que o ano acaba e que o povo chama de Ano-Novo, elas se multiplicam loucamente, das mais variadas cores e fazem muito barulho quando surgem no céu. Estou aqui pensando se você vai gostar disso, já que é sua primeira vez. Tem quem não gosta, mas a maioria adora. Sua avó, então, nem se fala! Ela nunca vai pro meio da muvuca (muvuca é muita gente num espaço que, mesmo grande, fica acochado), fica mesmo em casa, mas o legal é que daqui a gente consegue ver as luzes surgindo lá da praia, acredita? Não é mentira, acontece mesmo e toda vez que as luzes pipocam no céu com um estrondo ela ri uma risada muito gostosa, quase risada-especial-de-fim-de-ano. Até parece com as risadas que você já já vai aprender a dar, minha querida Beatriz, para quem todo dia é Dia-Novo.

 

Fernanda Meireles é professora, fanzineira e há dois meses, tia da Bia.

 

 

***

Pedro Rocha me ligou na terça e pediu uma crônica pro jornal O Povo.

“sobre o fim de ano e as pessoas”. ok, vamos nessa.

http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/840482.html

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2 Respostas to “Minha Querida Beatriz”

  1. karameloazul Says:

    todo dia é dia novo!!

  2. Monica (prima) Says:

    “Quando a gente pede com vontade, mesmo só dentro da cabeça, às vezes parece que alguém escuta e a coisa acontece. ”

    BRAVO!!!

    Parabens prima!!!

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