1, 2, 3, 4, 5, 5, 6!

– Senhores passageiros, estamos a trocentos-mil-pés de altura e numa velocidade de 800km por hora. Nossa previsão de chegada à Fortaleza continua: 22h e 25 min, horário local. Lá fora, agradáveis 45 graus abaixo de zero…

Voar de avião me dá gastura. A gente não vê muita coisa, o ouvido dói, a comida é ruim e as poltronas são muito apertadas. E dessa vez eu vinha na do meio. Do lado do corredor, um senhor rabiscava cálculos num guardanapo, do lado direito, um rapaz cochilava de boca meio aberta com as embalagens do lanche entre a mesinha e as mãos. Ele estava de casaco. Transbordando pelos punhos, dava pra prever uma megaultrapower tatuagem. Ele tinha uma barba loira muito por fazer. Li na armação do óculos: Versace. Ô bestera, pensei. Mas é tão bonito ver alguém dormir. Ele tinha um alargador na orelha. Lembrei do menino que ficou na minha casa quando fez intercâmbio em 98. Como era o nome? Dewey? Não, esse é um pensador da educação. Halley? Não, isso é um cometa… Harry? não… Americano, sem dúvida.

– Water, please.

– Ice, sir?

– Yes.

Pronto, não ouvi mais sua voz. a nossa poltrona era a 22, do meio pro fim do avião. Isso significa que depois de aterrissar ainda leva um bom tempo até poder sair, tem um mar de gente que fica logo em pé entre as poltronas, esperando a fila andar e o povo achar suas bagagens de mão. E naquele vôo de Brasília pra cá tava cheio de engravatados. Ô conversa feia e chata, senhor, é impressionante. Números. Valores. Lucros. E o rapaz ao meu lado acordou, notou que ainda íamos esperar mais para sair dali e resignou-se no banco, feito eu. E foi aí que, pelas caixinhas de som do avião, uma daquelas versões instrumentais com sax começou a tocar. A música era aquela assim:

“Hey now, heeey nowww

don’t dreaaaam is ooooveeerrr

hey now, heeeey nooow

it’s been a world between us..”

 

Aí ele começou a rir. Foi. Rir de incrédulo, logo que a versão da música entrou-lhe pelos ouvidos. Eu tive vontade de rir também, na verdade até ri, mas mais comigo que com ele, que olhava pras poltronas lá de trás procurando os amigos.

Os quatro se encontraram perto da esteira com as bagagens despachadas e ficaram conversando. Só no desembarque, vendo o tanto de adolescente que a gente se acostumou a ver nos cearás musics da vida foi que eu entendi, era um dos caras do Offspring.

Anúncios

Uma resposta to “1, 2, 3, 4, 5, 5, 6!”

  1. marco antonio Says:

    ourre! huhuh
    😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: