por mais beijos

Num mundo de Eloás e Lindenbergs, aquecimento global, presídios recheados de celulares, Bushs, crianças se prostituindo por comida e drogas, gente que é eleita pelo povo e se faz de sonso depois… ainda existe quem se incomode com um beijo.

 

Uma cidade grande como Fortaleza é sempre palco de vivências díspares ocupando os mesmos espaços. Espaços públicos em uso pleno – incluindo a manifestação dos afetos. Essa leva de atos homofóbicos que têm sido cada vez mais rebatidos com mais beijos em protestos organizados (chamados de “beijaços” ou “apitaços”) são para mim o que chamo de ressaca do mar. Atos homofóbicos não vão inibir aqueles que já decidiram beijar em público. A água já subiu, as geleiras do que era proibido já derreteram faz tempo, sorte de quem já notou e sabe que não precisa de pegação nos banheiros ou de mãos dadas por baixo da mesa. E, sim, há lei na cidade para coibir práticas discriminatórias em estabelecimentos comerciais: a lei orgânica  8.211 existe há 10 anos! “Armários” (viver a sexualidade em segredo) estão caindo em desuso e não só eles, mas também alguns rótulos, tornando a sigla LGBTT um alfabeto meio limitado, já que há cada vez mais gente que não “é”, mas pode “estar sendo”, ou simplesmente declina classificações para como vive seus desejos e afetos.

 

O argumento mais usado para alguém que pratica atos de homofobia é o de estar presenciando um atentado ao pudor, que o casal passou dos limites da decência e bom senso. Só que a questão principal não é o limite do comportamento afetivo/erótico entre o que se faz em público ou com privacidade, pois se assim o fosse, casais heterossexuais seriam igualmente tolhidos em seus arroubos, o que não acontece tanto. Aqui a questão é: um simples beijo na boca típico de novela das 7, acontecendo entre pessoas do mesmo sexo, ainda perturba o pudor de muita gente. Mas é só uma questão de tempo. E insistência através da delicada arte do conviver, que é quando pessoas estranhas entre si descobrem que não são tão diferentes assim, pois moram no mesmo planeta com mazelas iguais e desejos de felicidade bem parecidos.

 

 

 

ps: esse artigo foi escrito atendendo a pedidos do jornal O Povo, depois que houve outro – isso mesmo, mais um – apitaço em fortaleza dessa vez lá no CH da Uece, onde estudei e onde comecei a minha vida feliz de beijar em público. o reportagem está aqui:

http://www.opovo.com.br/opovo/fortaleza/832769.html

com meu comentário no final.

 

alguém me viu por aí “beijando uma mulher numa casa de show”?

achei que ficou esquisito, ó.

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