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Minha Querida Beatriz

novembro 30, 2008

 

A sua Cidade Solar está toda enfeitada, se você já saísse de casa e reparasse, ia ver. São enfeites, guirlandas e bolinhas coloridas por toda parte. Antigamente era mais fácil de ver as bolinhas que não piscam e que sua tia tanto adora. Hoje quase tudo pisca. E quando você pisca, já foi.

 

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No caminho pra casa eu vi um homem no alto da torre. Na verdade não era torre. É uma coisa de ferro apontando o céu, onde ao redor o povo enfeita de coisa e luz e vira uma Árvore de Natal. Aqui em casa nunca teve árvore, mas aqui na Cidade Solar tem pelo menos duas que são feitas para o povo todo olhar. Aí a gente olha. Então o homem tava subindo, talvez pra começar a enfeitar a árvore. Ele não estava só, tinha um amigo dele lá no lugar mais alto de todos. Isso foi num lugar chamado praça Portugal, que fica meio longe daqui e é cercado de carros e lojas por todos os lados. Mas disso você não precisa saber agora. Não faz muito sentido lhe explicar como funciona porque você é beibi e na verdade não faz sentido mesmo. A Árvore do ano passado era feita de redes. As mais perto do chão eram feitas pra gigantes, gente muuuito maior que você. Aí, a medida de ia ficando mais alto, as redes iam virando redinhas. Será que você já cabe na que ficava láááá no alto? Acho que ainda não.

 

Agora eu pensei que seria legal, porque você chegou, se a gente tivesse arrumado uma arvorinha pelo menos do seu tamanho. Ia ficar bonito na foto. E aí ela podia crescer junto com você.

 

Quando chega essa época as pessoas ficam meio doidas. Primeiro porque o ano vai acabar e tem uma coisa chamada dinheiro, uns papéis cheios de desenho, feitos pra trocar por coisas. As pessoas – algumas – ganham mais dinheiro nessa época, mas ficam aflitas sempre, ou porque já gastaram o dinheiro antes dele chegar ou porque acham que têm que gastar com alguma coisa que elas nem sabem bem o que é ou pra que servirá. A maioria acaba trocando o dinheiro por besteira mesmo, mesmo tendo que ficar em filas longas em lugares desconfortáveis. Você ainda não sabe como isso é chato porque o único lugar desconfortável pra você até agora era a barriga da sua mãe algumas horas antes de você chegar aqui e sua fralda quando está molhada, coisa que é muito passageira. Então, as pessoas ficam aflitas com isso chamado dinheiro e as coisas que ele trás, que podem ser chamadas presentes e/ou dívidas. Algumas ficam tão aflitas que tomam o dinheiro das outras. Uma vez, quando sua tia era dum tamanho entre agora e você (um pouquinho maior), sua avó a levou pra trocar dinheiro por sapatos, que seria o que o povo chama de Presente de Natal (não tem que ser sapatos, pode variar). Era no centro da cidade, um lugar grande e sempre aperriado nessa época. Fica perto da outra grande Árvore de Natal, na praça do Ferreira, que por sua vez é onde tem o prédio bonito onde seu bisavô trabalhou. Esse prédio se acende todo nessa época e crianças maiores que você aparecem cantando nas janelas. O nome dele é Excelsior.

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Mas voltando, o que aconteceu é que na hora que sua tia estava toda feliz dando os primeiros passos dentro do par de sapatinhos e sua avó buscava na bolsa o bendito dinheiro… Cadê? Foi-se em algum empurra-empurra da rua Guilherme Rocha com São Paulo. E aí sua tia, que num entendia muito, mas sabia que aquilo não era legal, te imitou aos berros dentro da loja.

 

Outro motivo que deixa as pessoas meio aflitas é que o ano está chegando ao fim e isso chamado FIM é algo que perturba muita gente, mesmo elas sabendo que logo chega outro ano, que depois do FIM tem sempre outra coisa. Paciência.

 

Ah, preciso lhe falar dum cara chamado Papai Noel. Ele tem dois nomes, chama-se Santa Claus, também. Eu sei, fica difícil entender como pode, mas o mundo tá cheio dessas cousas assim estranhas, você se acostumará. Então, reza a lenda que ele veio de longe e parece que nunca teve o seu tamanho. É um senhor gordinho e tem sempre muito cabelo. Todos brancos. Aparece de vermelho e tem outra lenda que diz que é por causa dum refrigerante aí, mas você não precisa saber disso agora. O que você precisa saber é que ele não é só um, na verdade são vários que aparecem nessa época, em tudo quanto é canto: nas lojas, nas casas e nos cantos que não são lojas nem casas. Mas tem um que fica na rua e não se veste só de vermelho. Ele é legal, embora eu nunca tenha falado com ele direito. A rua que falo é perto daqui e ele é legal porque a barba branca é de verdade, se veste de toda cor, branco, azul, amarelo, amarelo-queimado e até verde e o melhor de tudo: ele aparece o ano todo, não só no Natal. Quero muito lhe mostrar, se der tempo. Dizem que as crianças podem pedir qualquer coisa pro Papai Noel, agora, se elas vão receber, é outra coisa. Mas tudo bem, às vezes quando a gente pede, outra pessoa escuta o pedido e vai que ele se realiza? Então eu gosto desse Papai Noel colorido e de barba de verdade porque toda vez que passo por ele na rua peço uma coisa na minha cabeça. Quando a gente pede com vontade, mesmo só dentro da cabeça, às vezes parece que alguém escuta e a coisa acontece. Então, não é massa que ele exista o ano todo?

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Outra coisa. Quando chega nessa época do ano, além do Natal tem também o dia 31. É o último dia do ano e nele as pessoas costumam ficar mais doidas ainda. Muitas choram. Deve ter a ver com aquela história do FIM que falei antes. Elas choram muito, não como você, mas para algumas também é bom. Tem muita zoada em todo canto, muitas gentes se juntam nas casas ou em lugares pagos (e nesse caso o dinheiro serve não pra trocar por coisa, mas por um lugar temporário onde as pessoas acham que devem estar). Tem muita gente que se junta no meio da rua mesmo, porque não têm o tal do dinheiro ou porque querem ver as luzes no céu e talvez se jogarem no mar. Ah, tem gente que faz de tudo, fica que nem barata tonta, passa nas casas, vai nos cantos, gasta dinheiro e às vezes fica na rua. A maioria dessas pessoas usa um carro pra poder levar mais gente junto e estar ligeiro em todos esses lugares, coisa que, se a pessoa não for organizada, corre o risco de estar dentro de um carro no último minuto do ano (acontece muito).

 

Mas é importante ainda lhe falar das luzes no céu. Sempre tem, o ano todo, você vai perceber. Mas nessa noite do dia 31 de dezembro, na hora que o ano acaba e que o povo chama de Ano-Novo, elas se multiplicam loucamente, das mais variadas cores e fazem muito barulho quando surgem no céu. Estou aqui pensando se você vai gostar disso, já que é sua primeira vez. Tem quem não gosta, mas a maioria adora. Sua avó, então, nem se fala! Ela nunca vai pro meio da muvuca (muvuca é muita gente num espaço que, mesmo grande, fica acochado), fica mesmo em casa, mas o legal é que daqui a gente consegue ver as luzes surgindo lá da praia, acredita? Não é mentira, acontece mesmo e toda vez que as luzes pipocam no céu com um estrondo ela ri uma risada muito gostosa, quase risada-especial-de-fim-de-ano. Até parece com as risadas que você já já vai aprender a dar, minha querida Beatriz, para quem todo dia é Dia-Novo.

 

Fernanda Meireles é professora, fanzineira e há dois meses, tia da Bia.

 

 

***

Pedro Rocha me ligou na terça e pediu uma crônica pro jornal O Povo.

“sobre o fim de ano e as pessoas”. ok, vamos nessa.

http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/840482.html

por falar em pressa

novembro 28, 2008

o homem sozinho dirigiu a 140km por hora, de madrugada, uma distância de 40km, de jundiaí até osasco, disse o repórter, na rodovia Anhangüera NA CONTRAMÃO.

sem se desviar dos carros.

um policial rodoviário que vinha no sentido contrário conseguiu se desviar dele, bateu num sei onde e se machucou pouco. o homem dos 140km por hora só parou quando bateu de frente com um caminhão e morreu. o motorista do caminhão não se machucou, mas apareceu de costas na tela da minha tv de madrugada, em choque e não quis dizer nada.

o homem da contramão, segundo o cunhado e uma tia e um amigo era predreiro, estava feliz por estar comprando uma casa e tudo parecia muito bem.

como é que sai, se eu não tenho pressa?

novembro 26, 2008

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voltei há mais de 2 meses e sim, ainda sonho que estou lá. andando. em movimento. na cidade em que todo canto – escada do metrô, corredor de galeria, escada de prédio – tem uma placa ou adesivo dizendo de um jeito claro e eufemista: Saia do Meio ou Não Empalhe a Vida Alheia. logo eu, tão lesa, tão lenta, tão slow food, tão taurina, caí de amores por essa cidade doida e ligeira demais.

e nos sonhos passo de novo pelas faixas largas da paulista, pelos corredores da casa da bia, pela augusta-babilônia 666, jackson passa no metrô que sai assim que chego, pela sombra das árvores do trianon, ainda ouço o barulho do secador da ilana, judeus e coreanos sob placas escritas em outra língua, o escuro iluminado pelas palavras do museu da lingua portuguesa, o povo anunciando as promoções da feira de uvas estranhas, perdida entre os postais de 1920 e os gramofones das feirinhas, enrolada no travesseiro cheiroso da teresa, a risada da orianan que se confunde com um recreio do cearense – outro canto onde sempre volto em sonho -, aquela banheira verde da casa das rosas, tentando entender a praça roosevelt com o amarílio, sentindo na pele um frio esquisito, quase hostil, mas sorrindo. é, sonho muito com são paulo.

flávia disse uma vez num dos zine kiribati que quem viaja muda com a paisagem. as imagens se sobrepõem por sob minhas pálpebras assim que as fecho. não é toda noite, mas ainda acontece. e já tenho os desdobramentos bons dessa viagem, na hora certa, recebida e guiada pelas pessoas certas.

ó a placa.

ó a placa.

a história da viagem não acabou aqui. e ainda volto lá.

os astros

novembro 24, 2008

– Vai ver você está passando por um trânsito astrológico coisado.

– É. Vai ver esse trânsito é muito acochado e eu estou me enganchando nele.

 

 

mas tá passando. estou passando.

e eu lembro do texto bonito do Leminski:

“as coisas que você faz

você faz passando

e para passar.”

1, 2, 3, 4, 5, 5, 6!

novembro 15, 2008

– Senhores passageiros, estamos a trocentos-mil-pés de altura e numa velocidade de 800km por hora. Nossa previsão de chegada à Fortaleza continua: 22h e 25 min, horário local. Lá fora, agradáveis 45 graus abaixo de zero…

Voar de avião me dá gastura. A gente não vê muita coisa, o ouvido dói, a comida é ruim e as poltronas são muito apertadas. E dessa vez eu vinha na do meio. Do lado do corredor, um senhor rabiscava cálculos num guardanapo, do lado direito, um rapaz cochilava de boca meio aberta com as embalagens do lanche entre a mesinha e as mãos. Ele estava de casaco. Transbordando pelos punhos, dava pra prever uma megaultrapower tatuagem. Ele tinha uma barba loira muito por fazer. Li na armação do óculos: Versace. Ô bestera, pensei. Mas é tão bonito ver alguém dormir. Ele tinha um alargador na orelha. Lembrei do menino que ficou na minha casa quando fez intercâmbio em 98. Como era o nome? Dewey? Não, esse é um pensador da educação. Halley? Não, isso é um cometa… Harry? não… Americano, sem dúvida.

– Water, please.

– Ice, sir?

– Yes.

Pronto, não ouvi mais sua voz. a nossa poltrona era a 22, do meio pro fim do avião. Isso significa que depois de aterrissar ainda leva um bom tempo até poder sair, tem um mar de gente que fica logo em pé entre as poltronas, esperando a fila andar e o povo achar suas bagagens de mão. E naquele vôo de Brasília pra cá tava cheio de engravatados. Ô conversa feia e chata, senhor, é impressionante. Números. Valores. Lucros. E o rapaz ao meu lado acordou, notou que ainda íamos esperar mais para sair dali e resignou-se no banco, feito eu. E foi aí que, pelas caixinhas de som do avião, uma daquelas versões instrumentais com sax começou a tocar. A música era aquela assim:

“Hey now, heeey nowww

don’t dreaaaam is ooooveeerrr

hey now, heeeey nooow

it’s been a world between us..”

 

Aí ele começou a rir. Foi. Rir de incrédulo, logo que a versão da música entrou-lhe pelos ouvidos. Eu tive vontade de rir também, na verdade até ri, mas mais comigo que com ele, que olhava pras poltronas lá de trás procurando os amigos.

Os quatro se encontraram perto da esteira com as bagagens despachadas e ficaram conversando. Só no desembarque, vendo o tanto de adolescente que a gente se acostumou a ver nos cearás musics da vida foi que eu entendi, era um dos caras do Offspring.

Henry, mon ami!

novembro 15, 2008

Eu tive alguns tutores durante minha adolescência. Pessoas mais velhas, mais vividas e com histórias pra contar que me sussurravam baixinho uns conselhos, uns insights, umas passagens secretas. Estavam sempre por perto, de olho, eram quase amigos imaginários e eu conversava com eles na minha cabeça, no caminho do colégio pra casa. Henry Miller era um desses. Existe um livro pouco conhecido dele chamado The World of Sex, em que ele se explica e se fundamenta para além da fama de autor pornográfico. Existe uma passagem que sempre me volta e tem voltado muito esses dias. Ponho em inglês porque é lindo a maneira como ele escreve e depois tento uma tradução bem livreleve e solta:

 

Our laws and customs relate to social life, our life in commom, which is the lesser side of existence. Real life begins when we are alone, face to face with our unknown self. What happens when we come together is determined by our inner soliloquies. The crucial and truly pivotal events which mark our way are the fruits of silence and of solitude. We attribute much to chance meetings, refer to them as turning points in our life, but these encounters cold never have ocurred had we not made ourselves ready for them. If we possessed more awareness, these fortuitous encounters would yeld still great rewards. It is only at certains unpredictable times that we are fully atunned, fully expectant, and thus, in a position to receive the favours of the fortune. The man who is thoroughly awake knows that every “happening” is packed with significance. He knows that not only is his own life being altered, but that eventually the entire world must be affected.

 

agora a tecla sap:

 

Nossas leis e hábitos são relativas à nossa vida social, nossa vida em comum, que é o menor lado da existência. A vida real começa quando estamos sozinhos, face a face com o eu desconhecido. O que acontece quando estamos juntos é determinado pelos nossos solilóquios internos. Os acontecimentos cruciais e ___  (como se traduz “pivotal”?!) que marcam nosso caminho são frutos do silêncio e da solidão. Nós atribuímos muito aos encontros por acaso, nos referimos à eles como momentos decisivos de reviravolta em nossas vidas, mas eles jamais teriam ocorrido se não estivessemos nos preparado para eles. Se tivéssemos mais consciência, esses encontros fortuitos nos trariam ainda mais recompensas. É apenas em algumas épocas imprevisíveis, quando estamos completamente afinados, completamente abertos (não é a melhor palavra) e, por conseguinte, em posição de receber os favores da sorte. O homem que está profundamente acordado sabe que cada “acontecimento” vem embalado em significado. Ele sabe que não apenas sua própria vida, mas eventualmente a do mundo inteiro pode ser afetada.

 

Pronto. É, Henry Miller sabia das coisas.

por mais beijos

novembro 3, 2008

Num mundo de Eloás e Lindenbergs, aquecimento global, presídios recheados de celulares, Bushs, crianças se prostituindo por comida e drogas, gente que é eleita pelo povo e se faz de sonso depois… ainda existe quem se incomode com um beijo.

 

Uma cidade grande como Fortaleza é sempre palco de vivências díspares ocupando os mesmos espaços. Espaços públicos em uso pleno – incluindo a manifestação dos afetos. Essa leva de atos homofóbicos que têm sido cada vez mais rebatidos com mais beijos em protestos organizados (chamados de “beijaços” ou “apitaços”) são para mim o que chamo de ressaca do mar. Atos homofóbicos não vão inibir aqueles que já decidiram beijar em público. A água já subiu, as geleiras do que era proibido já derreteram faz tempo, sorte de quem já notou e sabe que não precisa de pegação nos banheiros ou de mãos dadas por baixo da mesa. E, sim, há lei na cidade para coibir práticas discriminatórias em estabelecimentos comerciais: a lei orgânica  8.211 existe há 10 anos! “Armários” (viver a sexualidade em segredo) estão caindo em desuso e não só eles, mas também alguns rótulos, tornando a sigla LGBTT um alfabeto meio limitado, já que há cada vez mais gente que não “é”, mas pode “estar sendo”, ou simplesmente declina classificações para como vive seus desejos e afetos.

 

O argumento mais usado para alguém que pratica atos de homofobia é o de estar presenciando um atentado ao pudor, que o casal passou dos limites da decência e bom senso. Só que a questão principal não é o limite do comportamento afetivo/erótico entre o que se faz em público ou com privacidade, pois se assim o fosse, casais heterossexuais seriam igualmente tolhidos em seus arroubos, o que não acontece tanto. Aqui a questão é: um simples beijo na boca típico de novela das 7, acontecendo entre pessoas do mesmo sexo, ainda perturba o pudor de muita gente. Mas é só uma questão de tempo. E insistência através da delicada arte do conviver, que é quando pessoas estranhas entre si descobrem que não são tão diferentes assim, pois moram no mesmo planeta com mazelas iguais e desejos de felicidade bem parecidos.

 

 

 

ps: esse artigo foi escrito atendendo a pedidos do jornal O Povo, depois que houve outro – isso mesmo, mais um – apitaço em fortaleza dessa vez lá no CH da Uece, onde estudei e onde comecei a minha vida feliz de beijar em público. o reportagem está aqui:

http://www.opovo.com.br/opovo/fortaleza/832769.html

com meu comentário no final.

 

alguém me viu por aí “beijando uma mulher numa casa de show”?

achei que ficou esquisito, ó.