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speak

outubro 11, 2008

A menina desistiu de falar e ninguém notou. Ninguém. E ela continua a andar nos mesmos lugares. Tem uns machucados pelo corpo, mas tenta deixar pra lá. Dorme, acorda, vai pra escola. Almoça com a mãe, recebe visitas. Fica o tempo todo muda, mas ninguém se incomoda. Ninguém percebe. Ela tem uns 14 anos e é bem bonita, essa menina, ainda mais agora que parou de rir fácil, de se maquiar e remexer os cabelos. Usa mais roupas. Olha mais e não fala. Fica só. Resolveu começar a pintar, desenhar, etc, por causa de um professor de artes que parece ser meio doido, mas não insiste para que ela fale. Levou esse cara em conta porque ele usa outras linguagens. O que diabos aconteceu pra ela parar de falar? Foi uma coisa ruim e que vai ficando clara aos poucos. Ela era muito pop no colégio. Agora é vista de um jeito ruim pelas amigas pop precocemente maquiadas e falantes que só o inferno. Debocham dela. A mãe é gente boa, mas muito ocupada pra perceber que ela não fala mais. E assim ela segue, impressionada com o fato de ninguém notar, nem se importar. Quase fica confortável. aí ela tem que apresentar um trabalho pra nota. Na frente da sala toda, como todo mundo. E agora? mas aí aparece um menino legal na sala dela. Um que fala e não fala merda. Que não tá nem aí se ela não fala, ele suspeita que é fase e lá no fundo deve achá-la linda. Mas o menino é estudioso, ocupado e muito prático, acaba sendo parceiro dela na apresentação do trabalho. Já estava antes do lado dela no laboratório de ciências, quando ela desmaiou ao ver um bicho aberto. É ele que topa representá-la lendo o direito de permanecer em silêncio dos cidadãos, uma lei aí e tals, ao invés de apresentar o trabalho de História.

Mas que merda foi essa que emudeceu a menina?

Uma vez ela ia na rua, mudou o rumo dos passos e entrou num hospital qualquer. Atravessou enfermarias, sozinha e bem calma, ninguém lhe perguntava nada. Achou um leito, deitou-se, cobriu-se. Seu ninguém perguntou nada. Ela arregalou os olhos, encheu-se e foi pra casa.

Isso é um filme, mas tem mais gente assim. De verdade.

O diabo é que as pessoas estão mais afim de tagarelar do que perguntar e ouvir e responder e perguntar e ouvir. E guardar.

E pra quem quiser ver, chama-se Speak, feito pra tv em 2004, com a Kristen Stewart (linda, ela). Não sei o nome em português, é meio paia, pra variar. Tem pra alugar facinho.

17 luas

outubro 8, 2008

A menina e o menino chegam na beira da praia, se sentam na areia gelada, é noite alta. Eles se sorriem no escuro, ela ajeita o cabelo, ele faz com a ponta do dedo um qualquer desenho no chão. Aí vem o beijo.

– Eu beijo melhor sem óculos, espera.

E continuam. E param. E continuam. Se chegam, se bastam, o cabelo dela na boca dele, mais risos, é muito vento naquela praia.

– Daquele lado é o Japão.

– Hum?

– É, ali, depois daquela duna já é o Japão.

Ela riu e não perguntou nada, só anos depois, vendo uma matéria na tv ela entenderia o que ele estava falando. E não entendeu muita coisa de todo o resto que ele falava. Mas era bom mesmo assim. A camisa dele cheirava a amaciante. Ela ajeitava os cabelos depois de cada beijo. Ele punha os óculos dela no V da camisa perfumada.

– Bonita a lua, né?

– É.

– Obscena.

– Adoro.

– Devia ter mais.

– Hum?

– É. Saturno tem 17 luas.

Se olharam em silêncio.

– Me dê 17 beijos, dê.

Entre o nono e o décimo ele olha pro céu e diz:

– Ali ficam as 3 marias. Qual delas seria você?

– Hum?

– As 3 marias, ó, enfileiradas.

– Ah.

E entre o décimo e o décimo primeiro, ele diz baixinho no ouvido dela:

– Eu sempre quis ter um telescópio.

Ao que ela responde mais baixinho no outro ouvido dele:

– Eu tenho dois.

Ele arregala os olhos.

– Sério?

– Hum-rum.

– Me mostra, um dia?

– Mostro hoje.

Ele a olhou longamente, seu meio-sorriso debaixo da lua clara, o vento no cabelo.

– Estão aí, na gola da sua camisa.