Archive for agosto \11\UTC 2008

o pau mole

agosto 11, 2008

– Fernanda. Você não pode sair dessa cidade sem ver o pau mole. Aliás. Sem PEGAR no pau mole!

– ?!?!

– Aguarde e confie.

E já era madrugada e o menino zunia de carro pelas ruas tortas e cruzamentos improváveis, atrás da floresta do pau mole.

– Hunmmn… onde era mesmo?… Peraí, acho que é acolá.

Dobramos, entramos noutra rua, dobramos pro outro lado, ele encosta o carro na calçada, estica o dedo na minha frente e aponta:

– Ali.

– Diabeísso?

– A floresta do pau mole! Desce aí e pega, pra tu ver.

Desci, lógico. Não é à toa que esse blog tem esse nome. Me aproximei de uma das árvores finas e altas, o tronco parecido com galhos de goiabeira, o vento frio da madrugada nas minhas pernas.

– Vai, aperta! – ele gritou de dentro do carro ligado.

Estiquei a ponta do meu indicador e o tronco cedeu um pouco. Não de se despedaçar, nada podre, parecia tudo bem saudável. Apertei então com as duas mãos, as pontas dos dez dedos.

– Meu deeeeeeeeeeus! Caramba, que marmota.

– Não te disse? Pronto, agora você já sabe do pau mole.

Voltei pro carro passada. Ele arrancou rumo ao aeroporto Guararapes, dessa vez o avião subiria comigo dentro.

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o seu papel.

agosto 6, 2008

As situações que se seguem já devem ter acontecido com você ou bem pertinho de você. Acontecem todo dia e são coisas ligeiras, gestos e insights. Enquanto elas acontecem os lixeiros trabalham, o aterro lota mais, assim como os shoppings, sacos plásticos voam pelo céu da Cidade Solar e se prendem em árvores, tampam bueiros, alguém pesquisa como reciclar papel em casa… o mundo é grande:

 

Cena 1. Na sala de aula:

Já aconteceu em versão lousa de giz e de pincel. Escola rica e não tão rica. A aula começa e percebo que quem deu aula antes de mim não só deixou a lousa repleta de cousas como também levou embora o apagador. E antes que eu peça a um aluno para pedir apagador em outra sala, um deles se antecipa na melhor das intenções, e RRRÉÉÉC! Rasga uma folha em branco do caderno e prontamente esfrega na lousa antes que um diga O “ai…”

 

Cena 2. Na rua:

O sinal fecha e lá vêm os entregadores de panfleto. Eu recebo, sim, pois sei que eu não vou jogá-los pela janela logo depois, desconfio dos outros motoristas. E alguns têm o verso do papel em branco, além de terem cheiro bom. Aí o rapaz vem dizendo bom-dia-obrigado e enfia um papel 10x15cm pela janela, maaaaas…. o papel tá em branco! Eu noto e ele nota e logo corrige, amassa o papel em branco na mão (erros de gráfica-escala-industrial) e me dá um de propaganda. Eu quis dizer: – NÃÃÃo! Me dê o outro mesmo!!! Mas ele já tava longe e o sinal era verde e alguém buzinava atrás.

 

Cena 3. Na casa do amigo:

Parei pra pensar com um deles na palma da mão… “Post it”. É esse o nome dos bloquinhos de cores néon feitos para bilhetes, lembretes, marca-textos, etc. É, são bonitos. Mas são caros. Muito caros. Não dá pra falar de lixo sem falar de consumo, então vamos lá. Minha mãe me ensinou uma lógica bacana: ela só compra uma coisa se for, nesta ordem de importância: útil, barata, de boa qualidade e bonita/sedutora. E eu fico pensando no fiiduaégua que pensou: “Vamo fazer bloquinho de rascunho e lembrete pra vender?” Com tanto papel mal-utilizado no planeta, taí uma idéia bem besta. Ainda que bonitos, aqueles bloquinhos custam o olho da cara e são perfeitamente substituíveis por qualquer outro papel usado.

 

Obs: Ninguém precisa viver para comprar papel higiênico apenas, mas é possível um consumo mais consciente e menos predador.

 

Cena 4. Na xérox:

Enquanto a moça chama alguém para me atender, como sempre fico olhando as caixas de resmas espalhadas pelos cantos, umas vazias, outras com resmas lacradas, outras com cópias de apostilas empilhadas e uma com o lixo da gráfica. Fico hipnotizada pelo lixo da gráfica. De todas as copiadoras em que já estive só uma tinha a simpática idéia de pegar retalhos de folhas cortadas na guilhotina e transformar em bloquinhos mínimos para dar de brindes a clientes. E olho as caixas vazias de resmas e lembro das caixas chiques vendidas em papelarias por 15 reais ou mais… Ora, as 2 cumprem as mesmas funções, guardar papéis direitinho, proteger da poeira e do mofo com aberturas para a ventilação. Tenho várias em casa, ganhei porque pedi.

Lá vem o rapaz me atender, cal-ma-men-te. Explico o que é e que tenho um pouco de pressa, ele balança a cabeça dum jeito vago e me dá as costas. Entra numa porta que descubro ser o banheiro, demora mais um pouco e volta com as mãos molhadas. Olha pra um lado e pra outro, não tem toalha nem papel higiênico nessa píula de banheiro. Aí ele olha pra máquina de cópias, abre uma gaveta e tira lá de dentro uma folha imaculadamente branca. Sem nenhuma hesitação, “enxuga” as mãos na folha de papel a4, faz uma bola de pepal e .. tchuns! Joga na caixa de resma com outros papéis amarfanhados – e muito limpos, alguns fotocopiados só de um lado. AAAAAAAi que DOOOOOr!!! Eu queria dizer:

– moço, eu ficaria aqui a tarde inteira esperando suas mãos secarem ao vento, mas num faça isso não…

Ou, se fosse a dona da gráfica:

– CÊ tá doido? Sua mãe não lhe deu educação não? Você é de que planeta?

 

 

Eu acredito no poder da educação. Acredito sim, que é possível mudar as cousas. Mas acredito que é mais digno começar pelo raio de ação ao nosso redor. E que a educação pode e deve acontecer através de um bom exemplo e um bom papo. Alguma dose de humor sempre vai bem. Transformar uma conversa ecológica em censura e batalha pra ver quem tem razão enche o saco de qualquer um. (E não o do lixo!)

Então é isso, são gestos simples, despercebidos de quem os fazem e de quem está ao meu lado em que lugar for que me faz pensar se eu e quem se irrita com eles é que viemos de outro planeta. Mas não… o mundo é grande. O mundo é grande, mas talvez nem resista tanto tempo. O mundo é grande, mas não é algo lá fora. O mundo é grande e sou eu, é você, é tudo o que tocamos e pensamos. E pense bem no destino que você vai dar a essa revista quando ela não mais te interessar.

 

(texto pra uma revista que tá quase quase)

 

 

 

 

 

o seu telefone irá tocar….. mesmo.

agosto 2, 2008

Ela também tinha um amigo que nunca conseguia usar os trocentos créditos que a operadora lhe oferecia a cada 30 dias. E não aguentava os budejos nem o desperdício, muito menos as ligações bobas que presenciava enquanto o amigo tentava GASTAR o dinheiro prometido em forma de palavras vãs, ainda que mantenedora de pontes invisíveis para alguéns. Então aproveitou a ida dele ao banheiro, rapou-lhe o celular muderno e discou uma longa série de números totalmente novos pra ela:

– Alô?

– Eu te amo.

 

E desligava.

 

 

 

ps: historinha troncha nascida e oferecida à Nathalie de Anna K. e Fernanda Lima, que escreve no manufatura Nova e vezenquando comenta aqui.