o Valter tá vivo e funcionando.

Segunda, começo de noite. Eu estava só e tomava um vinho no Cantinho da Filosofia (perto do CH da UECE, no bairro de fátima), meu bar preferido. Ele entrou andando devagar, com aquela mesma cara de quem podia estar num filme cuja história se passa em 1700 e algo. Os bigodes ajudam. Tantas vezes cruzei com ele por aí, assim como qualquer habitante da Cidade Solar que freqüente centros culturais ou que beba em praças e/ou bares baratos. Tantas vezes conversamos, mas sempre o tipo de conversa que só tem sucesso se meu espírito está curioso, aberto a estranhos e apto para muito breves participações em um monólogo regado a vinho.

– Olá, há quanto tempo!

– É, tu tava sumido, Valter.

– Por aí… olha só, acabei de saber que eu morri! Morri, tão dizendo por aí… Pela terceira vez, acredita?

Eu ri. Ele também.

– Onde você estava?

– Ah, andei em tanto canto…

– Quer sentar?

Ele faz uma breve mesura. Se mexe devagar, tem um tipo de elegância, sim, destoando das roupas surradas e da eterna cara de viração. Valter di Lascio é, em geral, muito gentil. O problema é quando o nível de álcool no sangue sobe além da boa intenção, que é vender seu livro de poemas (que eu considero um zine) chamado Biscoito com Champanhe. Aí, no meio de qualquer noite e em grupos de qualquer número de pessoas ele chega de mansinho, pedindo licença, se aproxima e se inclina falando baixo (o que te força a chegar mais perto pra não ser mal-educado) e fica. Deus sabe o quanto ele pode impregnar, se o ouvinte não for incisivo. Aprendi a ser, depois de conhecer os poemas, comprar alguns Biscoitos com Champanhe e deixar de abrir mão dos papos bons nos quais ele se metia ali nos barzinhos perto da Uece. Durante um tempo ele deixou de me oferecer. Mas achava bom vê-lo pelos cantos. Um poeta, ué, só que mora na rua, bebe muito, poita cigarros e não faz muita pergunta. E fala. E muito. Parte do cenário móvel da cidade. E tava era sumido.

 Ele sentou, pediu uma pinga.

– Com limão?

– Não, que isso embebeda! Traga pura mesmo.

Eu pedi meu segundo vinho.

 

– Mas de onde você vem por último?

– Eu tava numa casinha, numa praia linda lá em Maceió. Era uma praia… – e ri – olha o nome do lugar: Graça Torta! Aí já viu, né? Dormia com janelas e portas tudo aberto, ninguém enchia o saco. Tomava umas, dormia. Tinha uma gatinha lá. A safada deu cria. Foram crescendo… uma noite uma veio e se aninhou aqui, eu durmo de lado, assim (o braço apóia a cabeça). Aí veio outro filhote e subiu aqui e dormiu. Depois outro. Quando vi não tinha mais canto pra mim naquele colchão!

– Gatos são legais. As pessoas têm idéia errada deles.

– Eu nunca tinha criado gato. Aí, com o tempo, me apeguei. De manhã era a mesma coisa… ia na feira, comprava a ração, a cachaça, o cigarro… se sobrasse eu comprava arroz, feijão, essas coisas aí… Mas a ração deles era certo. Voltava e

 

Ele estende a mão para o meu isqueiro/carteira de cigarro.

– Eu acendo pra você. – detesto poiteros.

– Não, não – ele diz bem tranqüilo e faz um gesto com a cabeça. Pega meu isqueiro e bate no copo de vidro com a dose: tlin-tlin! E abre os braços.

– Aí eles vinham de todo canto, pra comer! – e sorri.

Fiquei foi encabulada.

 

Valter me pediu apenas um cigarro, depois que o convidei pra sentar. Logo comprou 3 derby no balcão, ia fumando enquanto bebia a pinga devagar.

 

– Você lembra do meu nome?

Pausa.

– Sinceramente? Não.

Sorriu. E completou:

– Mas isso é o de menos.

– Sim.

– Mas lembro daqui a pouco.

– Tá.

 

– Voltou pra ficar?

– Nããão… Tô indo pro Crato, na sexta ou sábado… Uns amigos lá… Conhecer o Crato. Sabia que eu nunca fui lá?

– Nem eu. Deve ser legal.

– É…

– E vou ver umas coisas aqui… saiu uma matéria minha no diário do Nordeste, em dezembro de 2006. Ficou afixada aqui na parede do bar.

– Eu vi sim.

– Então, vou atrás desse material…

– Lembra o nome do jornalista?

– Hunmnm… não… Vou ver lá. Minha memória é assim.

– Sei. Entendo.

– Menina, teve um show muito bacana… era… Cássia Eller e Arnaldo Antunes! Eu cheguei lá, uma fila.. aí encontrei um amigo, fui cumprimentar, depois outro, mais na frente, eles me reconhecendo, fui falando, quando vi já tava dentro do lugar do show. Um amigo meu, do Renegados, gente muito boa. Eu falei: cara, segura aí minha bolsa e ele jogou ali perto da bateria, sei lá… a única coisa que me lembro é de na hora do som eu rasgava meu livro e jogava pra cima: poemas para todos! Poesia pra todo mundo! Ah, lembro de outra cena também, mas só: tomando banho naquelas piscinas lá de roupa e tudo, nem aí… aí acordei na praia, sei lá que praia era, um sol alto.

E ri, como se depois duma boa travessura.

 

– Você acorda que horas, Valter?

– Quem disse que eu durmo?

 

– E tu já sabe todas as manhas de dormir na rua, com segurança, e tals?

– Eu mal durmo, só cochilo.

 

 

– Você foi pra faculdade, né?

– Fui… Mas começou a ficar muito chato no último ano e aí eu (faz um gesto com a mão).

– Do que?

– História. Na EDUSP.

– É muita história pra contar, né?

– Ah, é.

– Eu sempre fui meio destrambelhado, sabe? Aos 14 anos eu deixava um bilhete pra minha mãe assim: “Mãe, fui pro Rio”. Aí ficava lá uns tempos… Voltava…

– E perdia ano?

– Mas é claro….

 

Depois de mais meia hora e outros vinhos (ele no mesmo copo de cana).

– E agora, lembrou meu nome?

– Ah, tinha esquecido de pensar nisso…mas ainda vou lembrar já.

– Tá.

– Mas lembro de seus zines. E de seus postais, todos muito bonitos.

 

– Mas me diz, você casou?

– Sim. Casei, separei…

– Teve filhos?

– Sim. .. não minhas, assim, biológicas. Mas eram minhas filhas. Devem estar umas moças, hoje. Sinto falta delas. Mas só disso. Carinho, sabe? Muito carinho.

 

– Você gosta, Valter, de estar assim? Viver por aí…

– Escolhi. Fiz uma escolha. (e meio que dá de ombros).

 

Meu telefone toca. Antes que eu atenda ele diz:

– Fernanda! Não disse que ia lembrar seu nome? Olha aí…

 

 

– Você já pensou em escrever narrativas contando das suas viagens? Uma coisa autobiográfica?

– Já.

– Seria muito bacana.

Mas pra isso eu tenho que parar. Sentar num lugar quieto, escrever, parar, tomar umas, pensar, voltar… Escrever demanda uma reclusão… aí eu não páro, né?

– E o Biscoito com Champagne, ainda sai?

– Claro.

E me pede permissão pra ler um poema pra mim. Sempre detestei essa situação, mesmo gostando de poesia e de alguns poetas. É muito difícil eu gostar de um poema apresentado assim. E quanto mais importante o poema for para o leitor, pior parece ser. Ele lê.

– Gostei dessa palavra: fecho-èclair.

Ele pára um pouco, talvez não fosse o comentário esperado, mas continua, sorrindo:

– Uma menina nem sabia o que era isso, acredita? E eu disse: zíper, minha filha!

Aí eu ri.

– Você acha que o biscoito com Champanhe é mais livro ou fanzine?

– Ah, nem sei… eu não importo com o nome que tem. Não interessa muito, não.

 

Aí a gente tinha umas breves pausas. Bom sinal.

– Você está muito melhor agora, Valter.

– É?

– É sim.

– Bom.

Fumamos, bebemos.

– Já comeu algo hoje?

– Ah, comi um salgado ali e só. Não como muito.

Aí ele se empolga:

– Aliás, aí tem um salgado es-pe-ta-cu-lar.

– É mesmo.

– Olhe, eu já não vou durar muito tempo. Eu sei disso. Quero produzir o máximo agora e mandar tudo pra São Paulo.

– Hunmn. Pra onde, lá?

– Um parente meu. Vez em quando dou notícia.

– Ah.

– Tem muita coisa minha espalhada por aí. Queria pegar. Uma vez o Tom Zé veio tocar aqui e depois do show era aquela coisa, aí fui lá. Fui chegando… os alunos da UFC por lá… quando ele me viu ele se levantou, abriu os baços e disse: “Ó, poeta, há quanto tempo!” e o pessoal ficou olhando… ele veio, me chamou, sentamos acolá… eu já tinha dado um livro à ele, aí pedi um disco em troca. “Na hora!” ele tirou o CD, ele autografou, eu dei outro livro… e ele: “ah, mas você tem que autografar pra mim também!”. Tenho que pegar esse disco…

 

Fiquei imaginando se ele sabe dos textos sobre ele espalhados pelo orkut, da entrevista legal que o Pedro Rocha fez com ele no terminal do Papicu de madrugada e postou no site do Overmundo…

– Você usa Internet?

– Não… Nada. Inclusive me faz muita falta. Tenho leitor em todo conto do mundo, contatos. Lituânia, Espanha, Bolívia!…

– É mesmo?

– É. Amigo em todo canto. Eu escrevo, até escrevo. Mas como vou receber resposta? Não tem um canto. Quando escrevem de volta eu já fui. Uma vez encontrei uma amiga no Dragão do Mar, ela sempre compra meu trabalho. Aí pedi: você teria a bondade de me deixar fazer uma ligação? Ela me deu o celular, eu saquei da minha agenda… liguei prum amigo lá de…. uma felicidade…

 

Aí decidi.

– Você já foi convidado a falar em público?

Ele balança a cabeça que sim.

– Uma vez eu estava mostrando meu trabalho naquele bar… como chama? Hunmnm… Cantinho Acadêmico. Aí conheci uma moça chamada Marta Aurélia, que tem um programa na Rádio Universitária. Chamado Por uma cultura de paz. E ela me convidou e eu fui. Foi muito bom.

– Que massa! Ela é legal.

 

– Sabe onde fica a Livraria Lua Nova?

Balança a cabeça que não.

– O shopping Benfica, ali na 13 de maio?

– Sim.

– É em frente. Eu to organizando umas rodas de conversa meio entrevista e bate-papo com pessoas que gostam de ler e tals. Às vezes tem um convidado especial. Se eu te convidar você vai?

– Claro!

– Mas lá é de manhã.

– E daí?

– Eu nunca te vi de manhã.

Ele faz cara de ofensa.

– Claro que viu! Várias vezes. Nas oficinas, nas vinholadas…

– Ah, foi mesmo!

E lembrei que ele estava na sala do CH da Uece, sentado perto da porta, dormindo durante toda a minha primeira oficina de fanzine, em abril de 2000. Fiquei pensando… depois daquele papo não teria como confirmar.

– Então vou te dar meus telefones e fazer um mapa. É perto daqui.

– Certo. Anote tudo aí num papel…

Escrevo tudo, faço o mapa, ponho dia e horário.

– Ó.

– Ah, mas eu não consigo ler… – sorri – meus óculos, sabe? Depois que eu sentei neles… Depois eu dou um jeito de ler, me dê aí.

– Mas tá marcado? Posso esperar?

– Claro que pode! Eu chego lá.

 

Começo a pedir a conta.

– Quer um espetinho?

– Muito obrigado. Não tô com fome.

E mais educadamente ainda completa:

– Mas se você quiser me pagar uma coca-cola, eu aceito.

Paguei. Ai, tomara que ele chegue lá sábado.

– Vai ser ótimo.

– Vai sim. E vai ser minha despedida de Fortaleza. Até lá, foi um prazer conversar com você!

 

 

 

*********************

Mais sobre o Valter:

http://www.overmundo.com.br/overblog/sobre-o-cimento-frio

e aqui:

www.fotolog.com/leandson

 

 

e aqui, sábado dia 15, 10h. tomara!:

www.fotolog.com/literaturadelua

 

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Uma resposta to “o Valter tá vivo e funcionando.”

  1. nina rizzi Says:

    fernanda, legal sua crônica. só uma correção: a EDUSP é a editora da USP, e o Valter estudou na UNESP…

    beijos e vê se nao esquece de mandar os poemas que quer na antologia 😉

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