Foi ontem. Eu dirigia muito ligeiro pela av. Borges de Melo às 11:30h da manhã, pra encontrar o Nico. Passando ali perto da rodoviária eis que surge, numa esquina após o sinal (após!) um homem, de pé, sozinho, sob o sol (fez sol no domingo, amém), segurando nas mãos um gramofone.
Isso mesmo, um gramofone.
Pisquei várias vezes e arregalei os olhos ao passar por ele. Não hesitei, peguei o primeiro retorno e depois o segundo e parei ao lado. Demorei um tempinho para dizer algo olhando aquele objeto que o homem segurava agora na janela do meu carro. Tinha um papel escrito VENDE-SE na parte em que o gramofone se abre em flor.
- O senhor está mesmo vendendo isso?
- Sim.
- Quanto custa?
- Quatrocentos reais – o cara tinha sotaque estranho.
Não tinha quatrocentos reais. E foi o que eu disse. E disse que aquilo era lindo. Ele retrucou:
- Funciona, viu? – e deu corda e o disco começou a rodar sob a agulha e de fato a música começou a tocar.
Um gramofone tocava pra mim numa esquina dessa cidade, quase ao meio-dia de um domingo qualquer. Eu vi o cachorrinho ouvindo música no talhe da madeira. Eu vi como a parte de cima do gramofone brilhava ao sol.
- É, não tenho quatrocentos reais. – repeti.
- Quanto você tem agora? Pra pagar AGORA?
- !!…. tenho cem reais.
- Não dá. Não paga minha passagem.
Suspirei.
- De onde isso é? – e não lembro da resposta dele.
- E você, de onde é?
- Soy colonbiano. Mas a passagem é pra Goiânia.
- Você tem um telefone?
- Não.
Olhei mais tempo antes de ir embora. Esqueci de desejar boa sorte.

tinha aquele mesmo cachorrinho ali, ó.









