enquanto os correios saem da greve.

enquanto os correios saem da greve.

é o verso mais bonito – se é que dá pra dizer – da música mais bonita – se é que dá pra escolher – do Morrissey. na verdade a melodia ganha das palavras nessa música. e estive muitoausente porque isso aqui não é vida real. é flash de sonho. é pisco de luz. é charme.
o mundo real acontece aqui: www.fotolog.com/cidadesolar
e aqui dentro.
Acabei de ouvir no programa Brasileirinho que existe um bar no Benfica chamado Buraco do Reitor.
ekgnmklaerngklaernklgnaerkgnakerngkae
A minha Cidade Solar tem um navio fantasma.
Se chama Mara Hope.
Hope é esperança, em inglês.
De longe ele é preto, mas de perto ele é vermelho-velho. Ferrugem, cobre podre.
A ferrugem encrespou toda a superfície com agulhas de tétano.
Tem que tomar muito cuidado com os pés, lá.
Até porque há de se imaginar que quem chega até ele está descalço,
veio atravessando um pedaço do mar,
então pra quê calçados?
Tem gente que foi à tardinha e por lá anoiteceu.
Viu a lua e a cidade do navio naufragado. Até ficou pra dormir.
(como é que dorme?)

Um navio naufragado pra sempre bem em frente à sua vista mais bonita.
Como qualquer criança residente em Fortaleza, que repara no mar, um dia se nota aquela coisa grande, preta e parada no meio do litoral. Alguém me disse que era um navio. Acho que foi minha mãe. Aí depois eu gazeava aula na Ponte e me confirmaram. Mas aquilo num parece em nada um navio. Primeiro porque fica parado. Imóvel. Depois porque é grande e preto (e só a metade ta lá).
Quando eu trabalhei na Estação de Praticagem falando com os navios, ouvi de um dos práticos a história do Mara Hope. Além de ter sido uma narrativa puramente técnica, ele fechou com uma: “Num país sério, ele não ficaria ali. Aquilo é lixo. Lixo no mar.” Fiquei pensando. Numa cidade em que um de seus hinos fala que “Eu sou da nata do lixo, eu sou do luxo da aldeia, sou do Ceará” (Ednardo)… Tá tudo mais que certo, então.

desenho do vítor. que também gosta do ednardo.
http://www.blogzdovitor.blogspot.com/
Esse é do Vítor Batista, um dos maiores desenhistas da Cidade Solar (e com quem estou bolando uma série de cartões de visita eróticos chamada Kaminha Sutra). E concordo com ele. Prefiro apreciar o Mara Hope de longe. Morro de medo de ir lá. E quero muito que ele lá permaneça.
http://www.brasilmergulho.com.br/port/naufragios/artigos/2005/018.shtml
Lê esse artigo do Marcos Davis, que é mergulhador e já foi lá mais de uma vez. Que coisa mais linda.
http://www.youtube.com/watch?v=X5YvJvScQuc
Aqui uns gaiatos colocaram Paralamas só de deboche. Minha cena preferida é aos 3:40 segundos.

- buuuuuuuuu! - e elas adoram.
Como seria o nome dessa profissão? Aliás, isso não é profissão, isso é freela, bico, etc. Isso aí de se meter dentrode uma armação imensa e flexível, seja de personagem de turma da Mônica (que cruzam a beira-mar Toda Noite anos a fio naquele trenzinho), seja em aniversários, seja em supermercados… E poder fazer toda e qualquer cara lá dentroenquanto trabalha e ver crianças correndo nas duas direções
1. ao seu encontro, encantadas.
2. na direção oposta, aos gritos de horror.
3. indo e vindo, entre terror e curiosidade alegre – a melhor opção.
?
ps: flagra nas escadas do Extra Montese.
- ah, minha filha, ele não quer mais os pés que eu fiz com taaaanto amor…
- ?!
- quer não… fiz com tanto carinho os pezins do meu filhim… e agora ele não quer mais…
- ?!!?
- ééééé!.. só quer saber duns pés novos aí.

djérmanis mui felixxx
me empreste uma pepita de ouro
dessas suas aí
aí da sua mina
muito particular
levarei pra minha casa
andarei com ela na bolsa
ficarei mais rica
e depois te devolvo
Fui ao banheiro, não tinha papel. Da segunda vez pedi ao garçom que passava e fiquei esperando na porta. Como ele nunca veio, fui até o balcão, onde ele proseava com uma senhora de touca de cozinheira na cabeça. Nem aí.
- Oi. O papel.
- Ah!
Ele foi pegar e me estendeu o rolo de papel higiênico e soltou a pérola da noite, algo que eu nunca na vida sonhava ouvir, uma frase que fez estalar alguma coisa no meu cérebro (e na mesa a gente falava sobre instintos animais, teria sido isso, hein?), uma frase tão incrivelmente construída que é difícil crer que saiu assim, plincs, do nada, de graça. É, porque ele podia ter dito isso pra qualquer menina que fosse lá pedir o papel higiênico. Ele meio que falou rindo. Divertido consigo mesmo, satisfeito. Bem à vontade. Ele podia falar pra qualquer menina, mas não pra mim. Nunquinha.
- Tá aqui. Ó, aproveita que ele é rosa e perfumado pra esfregar direitim.
Pronto. Lascou-se.
Catei o papel e fui demais pro banheiro. Esse cara não tinha idéia. Eu não tinha idéia. Eu tinha idéia sim. Fazer xixi decentemente. Sem pressa, sem atropelo. E, durante, a outra idéia veio vindo. Na voz baixinha da Fernanda-Punk. Sorri muito. OK, let´s go:
Execução número 1 – pagar a conta.
Execução número 2 – procurar o dono do bar – e o garçom.
Execução número 3 – barraco propriamente dito: falar alto pra tooodo mundo ouvir.
Execução número 4 – ir embora.
Agora era só pôr em Prática. (Mal sabia eu que a parte 4 ia ser a mais difícil).
Voltei pra mesa e comuniquei:
- Meu povo, aconteceu uma coisa e eu quero realmente pagar a conta AGORA e ir embora.
- ??!!
- Pois é, explico já. Pode ser?
E bem ligeiro juntamos os dinheiros e o povo o-que-foi o-que-foi e pedi pra esperarem que eu já voltava e cheguei no balcão onde estava o bendito garçom. Dei o dinheiro e perguntei:
- Quem é o Feitosa?
- Num tem mais Feitosa, é outro dono.
- E quem é o dono, quem é responsável pelo bar?
Me apontaram a senhora de touca de cozinheira na cabeça.
- Ok, é o seguinte. Como é seu nome, moço?
E o garçom:
- Lu.
- Lu. Tá. Se a senhora é a responsável por esse bar, tenha mais cuidado com os garçons que escolhe pra trabalhar nele. Eu sou uma cliente daqui e depois que pedi um papel higiênico pra ir ao banheiro ouvi desse rapaz aqui a frase: “Ó, APROVEITA QUE ELE É ROSA E PERFUMADO PRA ESFREGAR DIREITIM”
Aí falei mais muuuuuuuuuuitas outras coisas e lembrava que não podia de jeito nenhum falar palavrão nessa hora, mas falava bem alto e pensava que tinha que falar não só alto, mas muito bem explicado e o cara:
- Desculpe aí, meu amor.
Aí lascou-se mais mais ainda:
- “AMOR” COISA NENHUMA, APRENDE A FALAR DIREITO, LU!! DIABEÍSSSO?
- Desculpe… senhora!
- Sinto muito, acho ÓTIMO você pedir desculpas, MUIITO MEEEEESMO, mas não vai dar pra lhe desculpar hoje porque estou MUITA PUUUUTA, desculpe aí o palavrão, mas olha só o que tu me falou, tu me deu um papel higiênico pra eu ESFREGAR DIREITIM?!!!??? Que RAIO DE JEITO DE FALAR É ESSE, LU??!!! Você quer QUE EU PENSE O QUÊ DE VOCÊ? Isso é o tipo de coisa que NUNCA PODE ACONTECER, ENTENDEU? TÁ FICANDO DOIDOOOOO???
- Certo, certo, entendi! Entendi!
- Tá. Era isso.
E caminhei pro carro e o povo tava notando e antes de entrar o garçom veio atrás de mim e parou no meio do bar e eu gritei (ai, é muito péssimo isso):
- LU!
- Opa!
- PENSE MUITO, MAS MUITO MESMO NO QUE EU TE FALEI. E QUE ISSO NÃO SE REPITA COM NINGUÉM QUE ESTÁ BEBENDO AQUI NESSE BAR. APRENDA A TER NOÇÃO E A FALAR COM AS PESSOAS DIREITO. OUVIU?
- Senhora! Por favor, venha até aqui.
- VOU ATÉ AÍ UMA PINÓIA, FALE LOGO BEM ALTO PRA TODO MUNDO OUVIR E SABER O QUE TÁ ACONTECENDO, OURA BOLAS.
Aí o Farad apontou o carro e abri e ele entrou do outro lado e lá vem a senhorinha de touca. Baixo o vidro e ela, ao lado do garçom:
- Moça, moça, calma, fique calma, deixe EU falar com você, assim numa conversa de mulher pra mulher…
Aí eu comecei a rir loucamente.
- O QUE?!!! QUE NEGÓCIO É ESSE DE MULHER PRA MULHER, MINHA SENHORA? SOMOS DUAS PESSOAS CONVERSANDO! E ELE TEM QUE APRENDER A FALAR!!
- Certo, certo, minha filha, desculpe aí o que aconteceu, mas é que…. Tá faltando 2 reais da conta.
Aí que não prestou mesmo.
- HÃ??????!!!!!!!!!! – eu ria ainda mais e não conseguia verbalizar o absurdo da situação. Ela tinha era que me indenizaaaaaaaar! O garçom era que tinha que me pagar o que quer que fosse! Pena que num deu pra eu dizer isso, eu ria muito. Aí agradeço aqui à presença de espírito (número 1) do Farad ao sacar 2 reais e estender pra mulher e dizer:
- Pronto, pronto, tudo certo, Fernanda, vamos embora…
E dei a partida e meti uma ré………………e……………….. PLÃN!
Derrubei uma moto que tava estacionada atrás do carro.
(soltei um palavrão que num sei qual foi. mais umas gargalhadas. e um suspiro.)
- OK, Farad, perainda.
Desci do carro muito puta, querendo rir e rindo e perguntei bem alto:
- DE QUEM É ESSA BENDITA MOTOCA AQUI?
Aí lá vem um garoto de no máximo 18, 19 anos, muuuuito sobressaltado (com razão).
- Minha…
- Tá. Fi, tente levantar aí e dê a partida pra ver se tá funcionando.
Ele levantou a moto. O bar todo olhava. O garçom olhava. Eu olhava a moto. E lembrava que foi assim que minha mãe me ensinou: bateu?azar,assuma. E ele tentou dar a partida a primeira vez e nada. A segunda vez e nada. Aí agradeço aqui alguém que não sei o nome, um rapaz que não conheço e saiu lá da mesa dele e disse:
- Fernanda, algum problema aí? Quer ajuda?
Agradeço deveras a este simpático desconhecido e ao silêncio que reinava no bar, ninguém dava um pio. Nem o garçom. (Ou era eu que tava surda de ódio?). Aí vem a incrível presença de espírito (número 2) do Farad, meu amigo meio-cientista:
- Olha, talvez na queda alguma coisa da engrenagem de num sei que – nunca entendo direito quando ele explica das geringonças – … mas se pôr em movimento ela pega. Tenta aí.
Afe! E lá foi ele e o menino pro meio da rua e chega o Chacal, amigo do tal meninim e meu amigo dos tempos de vinholadas no CH da Uece:
- Porra, Fernanda, que bicho otário (o garçom), mas vamo ver aí se pega e tals.
Eu ria. Ainda. E…………..PLINCS a moto voltou a funcionaaaaar! Uhuuuuu festa, vibração do povo e fui lá falar com o meninim.
- Tudo certo? Veja aí. Tenha certeza.
E ele e o Farad me asseguraram que sim. E me desculpei de novo por ter derrubado a moto e ele, não, não, tudo bem, tudo certo, pode ficar tranqüila e disse:
- Ó, mas tem uma coisa. Disso aí que aconteceu. É foda, cara, o atendimento aqui é mó paia mesmo, mas vê aí o tanto de gente que tem sentada nesse bar…
Olhei. É tinha até gente. (Olhando pra gente)
- Sei lá, tu falou, reclamou, massa, mas o povo pensa, e aí, se a gente num agüentar, onde é que a gente vai beber?
- O QUE????????? TÁ DOOOIDO??!! Mansh, tu tá no BENFICA! Tu sabe quantos bares tem nesse bairro? Eu tô indo e num volto nem a pau e nunca mais, não acredito que as pessoas sejam burras o suficiente pra ficar aqui ou ainda vir aqui depois de tudo isso! Nãr! Adeus! Desculpe aí de novo o mau-jeito. Vamo nessa Farad.
E o Farad:
- Cuidado só com essa moto aí da frente.
Fim de história.
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Ps1:escrevo essa história doida aqui pra gente pensar na vida assim, meio junto-separado. Eu acredito demais na educação. Eu tenho um mote que é assim: “È PRECISO APRENDER A FALAR COM ESTRANHOS”. Seguro a Bia no colo (ela tem 8 meses incompletos) e digo à ela, bem baixinho: esse lugar onde você veio nascer é muuuito estranho. Convivência é o maior desafio, a maior arte. O Benfica é minhas áreas dentro dessa Cidade Solar e não arredo o pé, não importa o que diacho aconteça. (E já aconteceu muita cousa troncha). Eu trabalho com educação, escolhi isso pra minha vida. Não separo vida e trabalho. Admiro muitíssimo o método ULTRAVIOLENCE, como no Kubrick. Mas num resolve muito. Tem que ser no verbo. As pessoas mudam. Bares passam. A gente fica.
Ps2: Existem 3 bares principais ali no Benfica. O Cantinho Acadêmico, o Feitosa e o Assis. O primeiro foi palco de muito arranca-rabo no que tange preconceito, mas o território é tão ótimo e precioso (av.13 de maio em frente à praça da Gentilândia) que dali ninguém arreda o pé meeesmo. Tenho uma história longa com o Cantinho Acadêmico, fica pra outra vez. Podemos dizer que EDUCAMOS (falo eu e todos, institucionalizados como o Grab e a Prefeitura ou não, pessoas que conseguem explicar pro Pereira que ele vacilava muito) a gerência do Cantinho Acadêmico. Os garçons mudaram, são todos gentlemen, aperto a mão de quase todos. Um dos donos é legal, o outro, o Pereira ainda precisa de vezemquando duns chega-pra-lá. O terceiro bar é o Assis, eu não conheço muito, mas a fama de péssimo atendimento é mais por ele ser naturalmente rabugento com todo mundo mesmo, acho. Virou folclore. Foi reformado agora e colocaram um piano de parede que não funciona. Adoro. Já fui com Flávia e Anna K e Beth e Jaína e foi muito legal. Foi no segundo, que se chamava Feitosa e descobrimos no cardápio seboso que mudou de nome, agora é Benfica´s Bar (arrgh). Então mudou de dono, também. E, espero, mude de dono ou vá à falência muito em breve.
Ps3: toda terça depois da Lua (www.fotolog.com/literaturadelua) a gente vai pro Cantinho Acadêmico. Porque diabos a gente resolveu mudar de bar, mesmo, hein, Estácio?
Ps4:
fernanda diz:
ergnaerngknerkgnçjkaernkjgnaerjngae
Estácio diz:
podia ter sido pior, né ?
fernanda diz:
ah podia
Estácio diz:
combustão espontânea
ps5: conversa “de mulher-pra-mulher” pra mim é cantada. Da Marisa.

aviiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia!
Diretamente do coração do Benfica, a Rádio Universitária
transmite pela FM 107.9 o programa Frequência Beatles
há mil anos.
É todo sábado, das 18h às 20h.
Sempre que tou em casa, escuto e fico aos pulos,
nem preciso sair sábado à noite.
E se tem uma coisa que acho muito linda e me diverte pra
caramba é povo fanático pelos Beatles, tipo aquele
filme da sessão da tarde, Febre de Juventude.
Aí o povo do programa é assim e ficam arrumando motivo
pra todo sábado comemorar um troço, os n anos de lançamento
de um disco deles, o aniversário de morte ou nascimento de
um deles, ou explicar os 60 e tantos personagens que
aparecem na obra toda deles, ou uma biografia (das mil) que
acabou de sairetc e etc…
E ainda tem umas perguntas promocionais absurdas, por exemplo:
“O que melancia e Opala tem a ver com os Beatles?”
Resposta no programa de sábado que vem.

nelson augusto, ailouviu!
Foi ontem. Eu dirigia muito ligeiro pela av. Borges de Melo às 11:30h da manhã, pra encontrar o Nico. Passando ali perto da rodoviária eis que surge, numa esquina após o sinal (após!) um homem, de pé, sozinho, sob o sol (fez sol no domingo, amém), segurando nas mãos um gramofone.
Isso mesmo, um gramofone.
Pisquei várias vezes e arregalei os olhos ao passar por ele. Não hesitei, peguei o primeiro retorno e depois o segundo e parei ao lado. Demorei um tempinho para dizer algo olhando aquele objeto que o homem segurava agora na janela do meu carro. Tinha um papel escrito VENDE-SE na parte em que o gramofone se abre em flor.
- O senhor está mesmo vendendo isso?
- Sim.
- Quanto custa?
- Quatrocentos reais – o cara tinha sotaque estranho.
Não tinha quatrocentos reais. E foi o que eu disse. E disse que aquilo era lindo. Ele retrucou:
- Funciona, viu? – e deu corda e o disco começou a rodar sob a agulha e de fato a música começou a tocar.
Um gramofone tocava pra mim numa esquina dessa cidade, quase ao meio-dia de um domingo qualquer. Eu vi o cachorrinho ouvindo música no talhe da madeira. Eu vi como a parte de cima do gramofone brilhava ao sol.
- É, não tenho quatrocentos reais. – repeti.
- Quanto você tem agora? Pra pagar AGORA?
- !!…. tenho cem reais.
- Não dá. Não paga minha passagem.
Suspirei.
- De onde isso é? – e não lembro da resposta dele.
- E você, de onde é?
- Soy colonbiano. Mas a passagem é pra Goiânia.
- Você tem um telefone?
- Não.
Olhei mais tempo antes de ir embora. Esqueci de desejar boa sorte.

tinha aquele mesmo cachorrinho ali, ó.