Arquivo da categoria ‘tronchices muito possíveis’

interlúdio – plenilúnio

Maio 23, 2009

Passei pelo lugar que você achava ficar em outro lugar, mas não, era ali. Parei, olhei, voltei. Procurei o lugar exato onde estivemos. Meus pés de frente pros seus, você de frente pra mim. Encontrei. Dessa vez o sol batia em cheio em mim, dessa vez não tinha chuva. Dessa vez, ao invés da sua risada e das frases ditas muito baixo, era só o meu silêncio doce. Depois que a mágica acontece, toco os objetos com muito cuidado, é assim que acontece. E foi bem então que lembrei do gesto muito presto em que você colocou minha bolsa – que eu tinha posto de lado, nem aí – no seu ombro. Entrebeijos.

 

Tesla ruuules! – parte 1

Maio 21, 2009

O Farad é um cara calado. Ele gosta de reparar em como as coisas funcionam – pessoas também. Aliás, reparar no mundo é uma das cousas que ele mais faz, além de vender guitarras, inventar histórias (ele fazia animação) e abrir computadores e outras engenhocas pra consertar. Mas voltando, ele fica reparando nas coisas-pessoas e talvez por isso seja muito calado. Daqueles calados que ficam olhando a conversa horas e horas na mesa do bar.

olha o que ela leva pro Escambo. eu disse, é tronchooo - e adoro!

olha o que ela leva pro Escambo. eu disse, é tronchooo - e adoro!

Aí numa terça feira aí a coisa mudou, ele tava mais falante que o homem da cobra. isso porque descobriu o Tesla. Que também devia ser um cara na dele. Aí o Farad desatou a contar um monte de história dele e, atendendo a pedidos, escreveu pra eu publicar aqui. Publico porque é uma história MUITO TRONCHA e esse blog vem de um zine que eu tinha chamado Cousas Cousadas Cousas Tronchas. Ficou longo, então publicarei em partes. Lai vai:

“O Gênio desconhecido

 Nicola Tesla, você possivelmente já ouviu o nome uma vez ou outra, mas não o que ele chegou a fazer. Nos Livros de história você vai aprender sobre o Thomas Edison, afinal a história é escrita pelos países vencedores e Tesla não era americano, ao contrário com as guerras mundiais ele passou a representar uma ameaça, mas sua ciência estava tão além da época que o mundo não podia simplesmente deixar para lá , geradores de corrente alternada, motor alternado, lâmpadas fluorescentes, circuitos de alta tensão como flashes de máquina fotográfica e  ignição de automóveis, máquina de raios X, equipamentos médicos, a lista é enorme e até a moderna pesquisa com plasma não seria possível sem ele.

 Antes de falar dele é interessante falar de outra coisa antes, o mundo na virada do século 19 e as primeiras décadas do século 20 era bem diferente do que conhecemos hoje,  As pessoas usavam muita roupa na rua , tinham poucas mudas de roupa,  duas por exemplo, o jornal era o principal meio para as pessoas ficarem informadas e para se comunicar as pessoas usavam carta ou telégrafo, e o transporte mais eficiente era o Trem a vapor ou navio a vapor,  publicar um livro exigia grande esforço e eletricidade em casa ou no trabalho era um luxo para pessoas muito ricas,  nas cidades a iluminação pública era a gás. As pessoas sonhavam com um mundo fantástico como no Filme Metropolis (1927) mas a realidade era bem outra.

 A Ciência e os cientistas nessa época também eram bem diferentes de hoje, hoje ciência é o que explica o mundo, e cientistas são pessoas que sabem de tudo ;) mas antigamente o povo via a ciência como a possibilidade de redenção,  e os cientistas eram celebridades mundiais, como heróis quase semi-deuses, tão importantes quanto presidentes ou astros de cinema , celebridades no sentido verdadeiro da palavra. Ser um cientista significava ir onde nenhum homem já foi antes, como garimpeiros explorando o mundo, descobrir as coisas, resolvendo problemas até então impossíveis. Alguns por ambição, outros por fama e ainda outro pelo bem de todos.”

(texto de Farad Rosevard, mon ami. E continua)

taí o homem. devia chamar ele pra falar no Literatura de Lua, néra?

taí o homem. devia chamar ele pra falar no Literatura de Lua, néra?

buttons.

Maio 9, 2009

aperte botao

eles funcionam?

funcionam.

o meu preferido

Abril 21, 2009

mdm241

é o Laerte.

e não é que tem mesmo um azulejo ao contrário na cozinha lá de baixo?

ô paulo, sente aqui, vá.

Março 26, 2009

ah, que bom que você veio. mas não precisa sentar tão perto, fasta um pouquinho pra lá. é, estão asfaltando a rua. o cheiro é ruim. tá todo mundo hipnotizado pelo preto novo do chão, ao invés de reparar nos estumes róseos. deixe que eu acendo seu cigarro. queria lhe pedir pra interceder pelo sol. reze pelo meu nariz e tubulações internas. para que eu não adoeça, porquer não vai dar tempo. ah, se der tempo me ensina uns golpes ninjas. e como se diz aquilo em sânscrito. em qualquer língua, aliás. mas o sol é mais urgente. e quase nada é urgente.

aí ele afiou o bigode. balançou a cabeça. bateu a cinza. e disse:

- nada que o sol não explique .tudo que a lua mais chique. não tem chuva que desbote essa flor.

dicionário

Março 6, 2009

eu penso em língua portuguesa
eu praguejo em cearês
eu fresco em portunhol
eu brinco em frânces
eu atravesso, esperanto
eu subverto em inglês
e ainda
quero tutti-frutti

turista de domingo

Fevereiro 19, 2009

E Sofie ressurgiu das cinzas! Esteve doente, vai ver foi um arroz de quixá em seu organismo de dinamarquesa curiosa. Depois que nos despedimos de todo o povo ótimo da oficina – ai que dor – pronto, minha missão oficial em São Luís estava cumprida. Mas continuava COMprida e assim foi o sábado: eu e Sofie desbravamos boa parte da cidade à pé. Andamos a tarde inteirinha, fomos bater na praça Gonçalves Dias – que me foi tão bem recomendada por Roberta Sílvia Félix – e lá nos esticamos num banco com vista pro Rio Anil conversando sobre tudo debaixo do sol. Até descobri uma simpatia tronca de minha colega, em paralelo à minha por hidrantes: antenas parabólicas.

sede, muita sede.

sede, muita sede.

sofie e sua parabólica na tarde flamboyant.

sofie e sua parabólica na tarde flamboyant.

Era domingo e entramos em igrejas.

http://www.youtube.com/watch?v=gcOjUOkAijI&feature=channel

Chupamos picolés olhando as casas e súbitos blocos de pré-carnaval que cruzavam nosso caminho regados por uma mangueira de um pequeno carro de bombeiros. Tava quente mesmo. E cruzamos a rua da Viração, a rua do Alecrim. Batemos papo com mais gente, eu tava era gostando muito de São Luís. E foi quando, no meio do caminho apareceu uma casa de xérox todinha com os azulejos da cozinha da casa da minha mãe.

"casa é ilha", já dizia H.H.

"casa é ilha", já dizia H.H.

Demos uma pausa no passeio que foi retomado à noite. Mas a pilha tava acabando (assim como meu saco de contar essa viagem todinha). Reencontramos o Delano, o cara do chapéu estranho, que ganhou um zine do Laboratório. “Vocês vão pro reggae?” ele perguntava com umas ventosas nas mãos. Fica pra próxima! E no meio do papo, no meio da praça, uma menininha me puxa pela mão.

- Monique!

A filha da Dona Teresinha só tava dando um oi. Fui lá e me despedi delas. Espero encontrá-las de novo, de verdade. De que tamanho Monique vai estar? Sofie e eu acabamos a noite – e a viagem, já que ela estava indo embora também no dia seguinte pro Fórum em Belém – espiando um ótimo exemplo de homem ludovicense. No meio da chuva fina, enquanto todo mundo tentava se abrigar debaixo das fachadas dos casarões, este gentleman no meio da rua segurava alto uma mesa de plástico enquanto sua dama dançava, a salvo da chuva. Ele se molhava todo e sorria. Deve ter sido ótemo pra eles também.

uma bela cena pra ser a última.

uma bela cena pra ser a última.

oficina de zines – parte 3

Fevereiro 18, 2009

Desci muito grogue para o café da manhã. No elevador pensei ter sonhado com uma rã. Com serpentes ludovicenses. Sei lá.

- Bom dia. Ela ficou na pracinha ali da frente, viu?

- Hã?

- A rã. Coloquei ela ali na pracinha.

- Ahhh! Obrigada, Luís – é, não tinha sido sonho.

ó o milvam ali!

ó o milvam ali!

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Dessa vez fui de ônibus de ônibus, ligeirim. E dessa vez o salão da escola de música tava lotado de gente que se revezava montando os quase 500 zines (4 diferentes), conversando, trocando contatos e sendo entrevistada pela equipe do Milvam. Por entre solavancos e escorregadas, a oficina de zine tinha sido um sucesso. Tá tudo – ou quase – aqui (inclusive o escândalo que é o jardim principal da Escola de Música de dia):

http://www.youtube.com/watch?v=zdkWY5NqQdw&feature=channel

agora dava tempo de posar pra fotos decentemente.

agora dava tempo de posar pra fotos decentemente.

segunda noite na Praia Grande – parte 2

Fevereiro 18, 2009

- Tem coisas que acabam e não é por isso que não deram certo. Aliás, o conceito de “dar certo” é um mistério.

Celso havia me levado pra jantar uma lasanha lá no Portas do Atlântico e me olhava comer enquanto conversávamos sobre movimentos estudantis, ongs, coletivos independentes e outros organismos muito vivos e formados por vários organismos vivos chamados PESSOAS. E que morrem, já que vivos. Sim, amadurecem, caducam e morrem. E, já que morto, porém antes vivo, deixam resíduos orgânicos muito férteis para o surgimento de outras cousas muito vivas. Eu estava lá naquele Laboratório de Mídias Livres de São Luís e sob meu nome na programação havia “Zine-se”. olhava longamente pra ele, de vez em quando. O Zine-se – esse encontro mensal de interessados em zines – fez 6 anos e parou. A Ong Zinco também parou na mesma época. E assim estamos desde então. É tudo tão lento, eu pensava enquanto comia minha lasanha. Tudo deixa vestígio, eu pensava enquanto me melava os dedos. Mas toda fome vale à pena. Celso entendia e me clareava as idéias. Depois que a gente traduz as cousas em signos – como numa conversa – tudo fica mais lógico. Aliás, falar serve pra isso, também: construir caminhos lógicos, quiçá iluminados para si e para os outros.

celso e os papos luminosos, mesmo sob luz difusa.

celso e os papos luminosos, mesmo sob luz difusa.

do lado direito, o mar.

do lado direito, o mar.

De lá perambulamos até reencontrar os amigos dele e decidiu-se o rumo do Bar do Porto, na rua do Trapiche, pertinho do mar. A chuva voltou e dessa vez com força, nos abrigamos na entrada do lugar. Lembrei da palavra Cafua. E da palavra Furna. Parecia mesmo uma caverna, uma toca, uma gruta estranha adaptada para se andar sem topar. Mas o teto era baixo e lá dentro o volume do reggae era alto, eu não estava com vontade de entrar. E tava bonito ver a chuva dali. E ali fiquei ainda numas cervejas repartidas com o povo até chinelar pra dentro de um táxi e ir pro hotel. Levando no bolso um pedaço de papel vagabundo como vale de outra cerveja em troca do troco que a moça do balcão não tinha.

Fechei a porta do quarto e já tinha tirado parte da roupa – pelo menos os óculos – quando vi algo se mexendo sobre a minha cama. Era pequeno, mas se eu consegui ver sem óculos, não era tão pequeno assim. E se mexia. Subia pelas paredes.

- CA-RA-LHOU, UMA RÃ!

Ela pareceu ouvir e confirmou dando um pulo pra outra parede. Fiquei sóbria em 2 segundos, agarrei o telefone e liguei:

lépida e fagueira.

lépida e fagueira.

- Recepção?

- Tem uma rã no meu quarto.

- Pois não, estamos subindo.

Imediatamente e com muita calma, a voz do cara. Ou isso acontecia sempre ou eles são muito ninjas, eu pensei. Eu estava hospedada no quinto andar do hotel, no lado “novo” de São Luís. Como diabos aquela rã foi parar ali?! Abri a porta para um rapaz armado com vassoura, detetizador (ô palavra troncha!) saco plástico e um sorriso sem graça.

- Tá ali, ó. Mas num precisa matar a bichinha não! Só tenta pegar ela e levar embora, certo?

- Pode deixar.

E quanto olé esse cara levou dessa rã enquanto eu esperava no corredor. Ele afastava a cama, o criado mudo, topava, o saco parecia estar furado, eu ria.

- Pronto, senhora Fernanda! Tá aqui a bicha. – e ergueu o saco no ar, muito vitorioso.

- Muito obrigada, Luís. – e dava passagem pros dois. – Isso já aconteceu antes?

- Não senhora.

- Ok. Boa noite.

- Boa noite.

ufa.

ufa.

segunda noite na Praia Grande – parte 1

Fevereiro 9, 2009

- Dona Teresinha, se eu deixar minha mochila aqui com a senhora… – e ela já começou a rir.

- Vá, minha filha, vá. Daqui nada some, não, lhe garanto.

E fui. Tão bom andar sem bolsa. Ainda mais numa cidade nova. É impressionante a resistência que se tem sem jantar e andando e trabalhando e pensando e bebendo numa cidade que não é a sua. Eu tava cansada, mas não contava muito.

“Você não é daqui, né?”, “Você é de onde?”

As pessoas sempre acham que sou de outro canto. Não importa muito onde eu esteja. E em São Luís pude confirmar. “É, não sou daqui.” E assim me comportei. Não sou mesmo daqui, então compro uma cerveja e sento acolá e olho e bato foto. E olho as pessoas como se recém-chegada de outro continente. E sei que quando ficar chato pego um táxi e vou pro hotel dormir. Mas tava longe de ficar chato. Então a pergunta era quando minha pilha ia acabar. A banda tocava forró com tambores. O povo aqui dança bem facinho, notei de novo. E como adoro ver gente dançar, sentei ali e lá deleitei-me. Apareceu um que parecia um gato. Musculoso e negro quase azul, cheio de curvas. Pulou por cima do banco onde eu tava sentada sem o menor esforço, bem dizer outro passo de dança. Foi saudar alguém e juntos dançaram.

ele nem notou, lógico. tinha cousas mais importantes a fazer.

ele nem notou, lógico. tinha cousas mais importantes a fazer.

E vi mendigos dançando. Nunca vi mendigos dançando assim. Bêbados ou sóbrios, não importa. Tive um sonho erótico depois e isso foi muito troncho. Misturou o povo que vi dançando e a borboleta e o leão da Escola de Música e mais coisa. O hippie com ventosas. Era um cara que vi desde o primeiro dia. Na verdade eu vi primeiro o chapéu. Que diacho era aquilo? Eu não soube precisar de que material era feito o chapéu e foi isso – além da forma – que me invocou. Animal, vegetal ou mineral? Ele estava expondo cousas numa calçada e a parede atrás dele era muito branca, isso deu um efeito mais cousado. E as bohemias também, claro. Sentei num batente em frente, do outro lado da rua e lá fiquei.ele não estava só. Tinha outro cara, uma mulher muito magra e muito lépida e uma criança. “Claro, onde tem um hippie de verdade tem uma criança.” Alguém bocó me disse depois. Fiz um vídeo. Não está no you tube. Ficou longo e o youtube não aceita. Tudo bem, guardo pra mim. Trinta mil pessoas passando entre eu e ele e a câmera no meu colo. Aí ele notou. E eu notei que ele notou. Aí eu fiquei sem jeito. E passou. Ele ficou lá. Brincava com a criança, que vestia uma camisa de mangas compridas, talvez compridas demais. Resolvi. Terminei minha cerveja e atravessei a rua. Sorrimos enquanto eu ainda estava no meio da travessia. Estendi a mão.

- Você é linda.

- Eu te filmei.

- Eu sei.

- É… você tem e-mail?

- Claro…

- !!!

O nome dele era Delano. Sorte pra tu, Delano.

a menininha já não precisva das mangas compridas, iam ambora

a menininha já não precisva das mangas compridas, iam ambora

ah, e tinha um gatinho na história.

ah, e tinha um gatinho na história.