Arquivo da categoria ‘tronchices cinematograficas’

- prefiro que leiam pra mim.

Fevereiro 8, 2009

thereader

Uma pausa na narrativa ludovicense, plis.

Tem atrizes que me bastam para ver um filme. Kate Winslet é uma. E ontem fui ver O Leitor. Não esperava tanto peso, mas tinha. Escondia meu nariz dentro da camisa, me encolhia junto do Enrico. Eu penso em todas as cousas invisíveis que acontecem quando uma pessoa lê pra outra. Eu passo a vida pensando nisso, dentre outras cousas. É um dos atos de amor que mais me põem do avesso  – e por isso o Literatura de Lua existe há mais de 1 ano, também. E nessa cena aí ele lia um trecho do Amante de Lady Chatterley.

ainda bem que ela existe

Dezembro 20, 2008

foi pela alana. foi num escambo na Lua. troquei com ela algum livro por um livro duma mulher com um nome esgraçado: Miranda July. na capa, uma coisa mais estranha que o nome, o título: “É claro que você sabe do que estou falando” e uma foto de alguém de sexo indefinido, de tamanho esquisitíssimo (que só fui notar hoje, meses depois) e abraçando loucamente uma rruma de travesseiros brancos.

a-capa-com-ser-inrigante ou as-pessoas-podem-ser-maiores-do-que-imaginamos

a-capa-com-ser-inrigante ou as-pessoas-podem-ser-maiores-do-que-imaginamos

alana merci. por ter comprado aquele livro, por ter lido, por ter levado pro escambo e por ter trocado comigo. era tudo o que eu precisava.

aí uma tarde qualquer, dias e dias depois, peguei e fui ler. degustar o livro. achei esquisita a foto dela na orelha, também. magra demais, cabelos doidos e um olhar de susto numa cara de cansaço. é a foto em que ela tá menos bonita de todas que já vi. sim, porque Miranda July é linda, não basta, não basta. e depois que li aqueles contos todos, fiquei com uma sensação igual aos dias muito cheios de cousas cousadas, cousas tronchas, súbitas, insólitas, lindas, sem a menor explicação e dados a nós de presente por algo Invisível e que, de algum modo, faz todo o sentido do Mundo.

saí pesquisando nos gúgous do mundo tudo o que podia sobre Miranda July. tive foi febre a medida que descobria mais cousas.

é tudo tão grave que perdi ônibus, faltei trabalhos, aluguei orelhas amigas em mesas de bar, ao telefone, chorei, me passei, me perguntava como pode como pode? a cada descoberta. o site oficial que lhe pede a senha, os assignements absurdos, os pôsteres escritos, o audiolivro, os vídeos no youtube, os botões, as performances que ela fazia antes dos shows de punk rock de meninas, os clips, o salto quebrado na entrevista, etc etc etc etc.

aí hoje a febre voltou de manhã, lá no Literatura de Lua. levei o livro e li pra joice, farad e fernanda lima o conto que mais gosto, “O garoto da Lam Kian”. dá pra você ler aqui (e o livro todo): http://fantastico.globo.com/Jornalismo/Fantastico/download/0,,3949-1,00.pdf

e depois que reli, as imagens continuaram surtindo efeito o dia todo, até agora. tô aqui pensando nela em algum lugar do mundoe querendo que ela tome muito cuidado ao atravessar a rua, naquele mesmo tipo de sensação que se tem ao pensar em alguém que se ama, que se quer bem e é precioso: cuidado! o mundo é doido e a gente é bem fragilzim.

aqui dá pra ver um dos vídeos dela (não curtas de ficção, mas se procurar dá pra achar esses também): http://www.youtube.com/watch?v=7RBir3jmQSc

é o How to Make Buttons. tem gente que não entende. acha que é bobagem, nonsense barato. eu não acho. eu me passo. e não vale explicar, ou você entende/capta/é atingido ou você simplesmente não sabe a senha. sem segregação ou papo-cult-cabeça-arte-contemporânea. vem antes.

quando tava no orkut achei uma comunidade que bolei de rir. é “Miranda July me entenderia”. sabe quantos membros têm? nenhum. e quando tentamos entrar, vai um pedido pro moderador e jamais na Terra a confirmação volta. será que é ela a dona da comunidade? nem duvido.

aí achei o bendito filme. logo ali, na aza vídeo vizinho ao shopping benfica. assisti bem sozinha, sem acender as luzes da sala depois que o sol se pôs. o filme é um capítulo à parte, chega por hoje. fica aqui o cartaz:

cartaz da versão japonesa. os cartazes das versões japonesas dos filmes me desfibram a alma.

cartaz da versão japonesa. os cartazes das versões japonesas dos filmes me desfibram a alma.

essa cena é no final.

pronto, morremos.

puf!

 

ps: em tempo. karine, flávia, mariana, nico, alana. um beijo. vocês sabem exatamente do que estamos falando. e como já disse antes, amor é dar corda nas idiossincrasias alheias.

speak

Outubro 11, 2008

A menina desistiu de falar e ninguém notou. Ninguém. E ela continua a andar nos mesmos lugares. Tem uns machucados pelo corpo, mas tenta deixar pra lá. Dorme, acorda, vai pra escola. Almoça com a mãe, recebe visitas. Fica o tempo todo muda, mas ninguém se incomoda. Ninguém percebe. Ela tem uns 14 anos e é bem bonita, essa menina, ainda mais agora que parou de rir fácil, de se maquiar e remexer os cabelos. Usa mais roupas. Olha mais e não fala. Fica só. Resolveu começar a pintar, desenhar, etc, por causa de um professor de artes que parece ser meio doido, mas não insiste para que ela fale. Levou esse cara em conta porque ele usa outras linguagens. O que diabos aconteceu pra ela parar de falar? Foi uma coisa ruim e que vai ficando clara aos poucos. Ela era muito pop no colégio. Agora é vista de um jeito ruim pelas amigas pop precocemente maquiadas e falantes que só o inferno. Debocham dela. A mãe é gente boa, mas muito ocupada pra perceber que ela não fala mais. E assim ela segue, impressionada com o fato de ninguém notar, nem se importar. Quase fica confortável. aí ela tem que apresentar um trabalho pra nota. Na frente da sala toda, como todo mundo. E agora? mas aí aparece um menino legal na sala dela. Um que fala e não fala merda. Que não tá nem aí se ela não fala, ele suspeita que é fase e lá no fundo deve achá-la linda. Mas o menino é estudioso, ocupado e muito prático, acaba sendo parceiro dela na apresentação do trabalho. Já estava antes do lado dela no laboratório de ciências, quando ela desmaiou ao ver um bicho aberto. É ele que topa representá-la lendo o direito de permanecer em silêncio dos cidadãos, uma lei aí e tals, ao invés de apresentar o trabalho de História.

Mas que merda foi essa que emudeceu a menina?

Uma vez ela ia na rua, mudou o rumo dos passos e entrou num hospital qualquer. Atravessou enfermarias, sozinha e bem calma, ninguém lhe perguntava nada. Achou um leito, deitou-se, cobriu-se. Seu ninguém perguntou nada. Ela arregalou os olhos, encheu-se e foi pra casa.

Isso é um filme, mas tem mais gente assim. De verdade.

O diabo é que as pessoas estão mais afim de tagarelar do que perguntar e ouvir e responder e perguntar e ouvir. E guardar.

E pra quem quiser ver, chama-se Speak, feito pra tv em 2004, com a Kristen Stewart (linda, ela). Não sei o nome em português, é meio paia, pra variar. Tem pra alugar facinho.

estranho troncho em ninho idem

Julho 30, 2008

Há tempos vi o filme. Em VHS, numas das maratonas dominicais de cinema em casa. Eu devia ter uns 14 anos, acho. Lembro que de novo tive a mesmíssima sensação: Jack Nicholson parece com meu pai… E o filme foi daqueles como marreta na cabeça da gente. Cenas de fechar os olhos, se encolher.

Aí agora tô lendo o livro que meu extra-amigo me deu. É piorrr, muito piorrr!

Vocês entendem quando eu digo esse “pior”, né? É porque quando a gente lê, as imagens com a proporção que a gente cria aparecem na nossa cabeça de olhos fechados ou abertos.