Então eles se foram e lá estava eu com as bagagens e a terceira Bohemia. Aí apareceu o Rafael, o carioca que ia dar a oficina de intervenção urbana. E logo me deu dois zines de quadrinhos de alguém lá do Rio. E logo o Celso finalmente apareceu, com cara de cansado e muito sério. Falamos pouco, mais de como tinha sido, o que tinha faltado e que tinha esperanças no amanhã. O Bruno, que me recebeu no aeroporto, apareceu perguntando se eu queria ir pro hotel naquela hora – comecinho de noite – e eu fiquei na dúvida. Muito solícito ele disse:
- Se você quiser ficar aqui direto pro show, não tem problema. Posso levar sua bagagem pro hotel.
Uau! Pensei, quero sim. Entreguei minha mochila maior com as roupas e mais coisa dentro pra ele e fiquei só com a mochila menor, com papéis, câmera, documentos. E agradeci a Deus e minha mãe por ter me deixado estudar bem muito e ter um trabalho em que alguém em outra cidade me perguntasse uma delicadeza daquelas. Algumas pessoas passavam e nos cumprimentavam e eu tentava guardar o nome de todo mundo e o que cada uma fazia, depois desisti e Celso se foi. Logo chegou o Marcelo, da oficina de stêncil. Depois a Sofie, que tinha participado um pouquinho das duas oficinas.
Logo éramos quatro para a primeira noite em São Luís: eu de Fortaleza, Rafa do Rio, Marcelo de Minas e Sofie da Dinamarca. Não fomos muito longe em espaço, só em tempo. O papo tava bom, entre planos B pras oficinas, impressões de São Luís e nossas cidades e o garçom trouxe um balde obsceno de Bohemias mergulhadas no gelo quando o Marcelo pediu só-mais-uma. Rafael ainda pediu uma Tiquira, a bebida doida e roxa de São Luís, mas não tive coragem de experimentar – eu sou prudente. Depois de mil anos vimos o show do Wado e depois de mais mil anos acabou a pilha e fomos embora.

em um breve passeio, achei - lá atrás, subindo as escadarias - o beco da catarina mina!
mas a noite não tinha acabado.
Cheguei no hotel meio molhada de chuva e feliz, pensando no Wado e na raiz que ele diz ser uma flor que renega a fama.
- Boa noite. – recebi as chaves do quarto e tals.
- Boa noite. A minha mochila.
- Que mochila?
- A minha, uma preta, que o pessoal da organiação do encontro trouxe antes de eu chegar.
- Um momento. – não-não-não-não-não. Ele voltou e disse:
- Não recebemos nenhuma mochila D. Fernanda.
Tava bom demais. Ai ai. Respire. Respirei. Subi pro quarto e liguei pro Celso. Ele ia atrás do Bruno e da minha mochila e me ligava. Mandaria a mochila pro hotel ainda naquela noite. Ok, tomei um banho e apaguei. Depois, 1 da manhã, alguém bate na minha porta. Me enrolo no lençol e abro. Um senhor de olhos puxados me estende uma maleta.
- Fernanda? O Celso pediu que eu lhe entregasse sua bagagem.
- ?! Não é a minha.
- Não?
- Não. – ai meu deus, encostei a cabeça na porta. – Você é o…?
E ele me diz um nome com sobrenome em japonês.
- AAhhh! Você veio com a gente no vôo?
- Sim.
- E onde você estava?
- No hotel. Desci do avião, não vi ninguém, peguei um táxi e vim pra cá, ué.
Prático e sábio. Como eu devia ter sido.
- Olhe, pois foi um prazer, vamos conversar mais de manhã, vou ligar pro Celso de novo…
E olhamos pra bolsa.
- E de quem é essa mala, então?
- Sei lá!
E rimos e nos demos boa-noite. O dia seguinte ia ser longo.

sofie e rafo castro






