A menina e o menino chegam na beira da praia, se sentam na areia gelada, é noite alta. Eles se sorriem no escuro, ela ajeita o cabelo, ele faz com a ponta do dedo um qualquer desenho no chão. Aí vem o beijo.
- Eu beijo melhor sem óculos, espera.
E continuam. E param. E continuam. Se chegam, se bastam, o cabelo dela na boca dele, mais risos, é muito vento naquela praia.
- Daquele lado é o Japão.
- Hum?
- É, ali, depois daquela duna já é o Japão.
Ela riu e não perguntou nada, só anos depois, vendo uma matéria na tv ela entenderia o que ele estava falando. E não entendeu muita coisa de todo o resto que ele falava. Mas era bom mesmo assim. A camisa dele cheirava a amaciante. Ela ajeitava os cabelos depois de cada beijo. Ele punha os óculos dela no V da camisa perfumada.
- Bonita a lua, né?
- É.
- Obscena.
- Adoro.
- Devia ter mais.
- Hum?
- É. Saturno tem 17 luas.
Se olharam em silêncio.
- Me dê 17 beijos, dê.
Entre o nono e o décimo ele olha pro céu e diz:
- Ali ficam as 3 marias. Qual delas seria você?
- Hum?
- As 3 marias, ó, enfileiradas.
- Ah.
E entre o décimo e o décimo primeiro, ele diz baixinho no ouvido dela:
- Eu sempre quis ter um telescópio.
Ao que ela responde mais baixinho no outro ouvido dele:
- Eu tenho dois.
Ele arregala os olhos.
- Sério?
- Hum-rum.
- Me mostra, um dia?
- Mostro hoje.
Ele a olhou longamente, seu meio-sorriso debaixo da lua clara, o vento no cabelo.
- Estão aí, na gola da sua camisa.
Outubro 8, 2008 às 1:41 pm |
hum-rum.
bem lindo.
eu tb sei onde é o Japão.
Outubro 9, 2008 às 3:04 am |
Amei!!
Outubro 9, 2008 às 3:47 am |
Amei!!²
Outubro 12, 2008 às 4:45 pm |
eita, meireles! esse é um desses (poucos) textos que me dão vontade de responder, de retribuir, tal qual as flores que estão pra nascer.
é florescimento interno. ainda mais quando se tem telescópios e binóculos por perto pra embassar. rs
ai, ai