As situações que se seguem já devem ter acontecido com você ou bem pertinho de você. Acontecem todo dia e são coisas ligeiras, gestos e insights. Enquanto elas acontecem os lixeiros trabalham, o aterro lota mais, assim como os shoppings, sacos plásticos voam pelo céu da Cidade Solar e se prendem em árvores, tampam bueiros, alguém pesquisa como reciclar papel em casa… o mundo é grande:
Cena 1. Na sala de aula:
Já aconteceu em versão lousa de giz e de pincel. Escola rica e não tão rica. A aula começa e percebo que quem deu aula antes de mim não só deixou a lousa repleta de cousas como também levou embora o apagador. E antes que eu peça a um aluno para pedir apagador em outra sala, um deles se antecipa na melhor das intenções, e RRRÉÉÉC! Rasga uma folha em branco do caderno e prontamente esfrega na lousa antes que um diga O “ai…”
Cena 2. Na rua:
O sinal fecha e lá vêm os entregadores de panfleto. Eu recebo, sim, pois sei que eu não vou jogá-los pela janela logo depois, desconfio dos outros motoristas. E alguns têm o verso do papel em branco, além de terem cheiro bom. Aí o rapaz vem dizendo bom-dia-obrigado e enfia um papel 10×15cm pela janela, maaaaas…. o papel tá em branco! Eu noto e ele nota e logo corrige, amassa o papel em branco na mão (erros de gráfica-escala-industrial) e me dá um de propaganda. Eu quis dizer: – NÃÃÃo! Me dê o outro mesmo!!! Mas ele já tava longe e o sinal era verde e alguém buzinava atrás.
Cena 3. Na casa do amigo:
Parei pra pensar com um deles na palma da mão… “Post it”. É esse o nome dos bloquinhos de cores néon feitos para bilhetes, lembretes, marca-textos, etc. É, são bonitos. Mas são caros. Muito caros. Não dá pra falar de lixo sem falar de consumo, então vamos lá. Minha mãe me ensinou uma lógica bacana: ela só compra uma coisa se for, nesta ordem de importância: útil, barata, de boa qualidade e bonita/sedutora. E eu fico pensando no fiiduaégua que pensou: “Vamo fazer bloquinho de rascunho e lembrete pra vender?” Com tanto papel mal-utilizado no planeta, taí uma idéia bem besta. Ainda que bonitos, aqueles bloquinhos custam o olho da cara e são perfeitamente substituíveis por qualquer outro papel usado.
Obs: Ninguém precisa viver para comprar papel higiênico apenas, mas é possível um consumo mais consciente e menos predador.
Cena 4. Na xérox:
Enquanto a moça chama alguém para me atender, como sempre fico olhando as caixas de resmas espalhadas pelos cantos, umas vazias, outras com resmas lacradas, outras com cópias de apostilas empilhadas e uma com o lixo da gráfica. Fico hipnotizada pelo lixo da gráfica. De todas as copiadoras em que já estive só uma tinha a simpática idéia de pegar retalhos de folhas cortadas na guilhotina e transformar em bloquinhos mínimos para dar de brindes a clientes. E olho as caixas vazias de resmas e lembro das caixas chiques vendidas em papelarias por 15 reais ou mais… Ora, as 2 cumprem as mesmas funções, guardar papéis direitinho, proteger da poeira e do mofo com aberturas para a ventilação. Tenho várias em casa, ganhei porque pedi.
Lá vem o rapaz me atender, cal-ma-men-te. Explico o que é e que tenho um pouco de pressa, ele balança a cabeça dum jeito vago e me dá as costas. Entra numa porta que descubro ser o banheiro, demora mais um pouco e volta com as mãos molhadas. Olha pra um lado e pra outro, não tem toalha nem papel higiênico nessa píula de banheiro. Aí ele olha pra máquina de cópias, abre uma gaveta e tira lá de dentro uma folha imaculadamente branca. Sem nenhuma hesitação, “enxuga” as mãos na folha de papel a4, faz uma bola de pepal e .. tchuns! Joga na caixa de resma com outros papéis amarfanhados – e muito limpos, alguns fotocopiados só de um lado. AAAAAAAi que DOOOOOr!!! Eu queria dizer:
- moço, eu ficaria aqui a tarde inteira esperando suas mãos secarem ao vento, mas num faça isso não…
Ou, se fosse a dona da gráfica:
- CÊ tá doido? Sua mãe não lhe deu educação não? Você é de que planeta?
Eu acredito no poder da educação. Acredito sim, que é possível mudar as cousas. Mas acredito que é mais digno começar pelo raio de ação ao nosso redor. E que a educação pode e deve acontecer através de um bom exemplo e um bom papo. Alguma dose de humor sempre vai bem. Transformar uma conversa ecológica em censura e batalha pra ver quem tem razão enche o saco de qualquer um. (E não o do lixo!)
Então é isso, são gestos simples, despercebidos de quem os fazem e de quem está ao meu lado em que lugar for que me faz pensar se eu e quem se irrita com eles é que viemos de outro planeta. Mas não… o mundo é grande. O mundo é grande, mas talvez nem resista tanto tempo. O mundo é grande, mas não é algo lá fora. O mundo é grande e sou eu, é você, é tudo o que tocamos e pensamos. E pense bem no destino que você vai dar a essa revista quando ela não mais te interessar.
(texto pra uma revista que tá quase quase)
Agosto 7, 2008 às 8:53 pm |
Li tudo. Morro de gastura qnd vejo alguem jogando papel fora, no chão ou usando inutilmente. Tem um bando de pigs perambulando por aí. =/ E acho necessário ter educação, ainda que eu esqueça mt disso por pura alienação msm. E acho q tu és mt, mas MT paciente. Ou eu que sou estourada d+! >.<”
;*
Agosto 11, 2008 às 10:10 am |
Nossa!!
Preciso segurar o queixo para não contnuar caído.. rsrs
Reverências pelo texto e muito mais pela consciência e luta ecológica!!!
Texto claro, leve, divertivo e um grande alerta para nossa cômoda deseducação ambiental.
Utilizar a reciclagem e coleta seletiva do lixo, não substituem o bom senso na uttilização, mas servem de uma boa saída alternativa.
Pelo menos na saída alternativa estou fazendo a minha parte e depois disso vou tentar reeducar meus maus hábitos… #)
Para quem gosta de escrever é difícil não estragar tanto papel com seus rascunhos… Tenho que rascunhar virtualmente, mas aí vem o problema do uso da energia elétrica…rsrsrs
Um grande abraço e parabéns pelo blog,
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Março 24, 2009 às 12:19 pm |
Rapaz, a cena 4 é PERFEITA. SE fosse um filme seria fantastico.
Muito bom.
Parabéns.
Em relação ao papel…é escroto isso mesmo.